A Cultura do Sofrimento




Eu já levantei anteriormente a questão de que cristianismo e budismo são religiões tão poderosas porque lidam diretamente com a questão do sofrimento.

Jesus nasceu pobre e conheceu o sofrimento ao longo da vida. Morreu na cruz. Buda era rico, mas sofreu ao conhecer a velhice, a doença e a morte. Por isso buscou o sofrimento por vontade própria, até que encontrou um caminho entre os dois extremos.

Quando meditamos, aprendemos a conviver com a dor e aprender com ela. Descobrimos que a dor é nosso maior mestre. E quando nos envolvemos com religiões como cristianismo, vem a vontade de se sacrificar pelos pobres, doentes, etc. Cada religião tem suas características e pode ser que você veja as religiões focando em pontos diferentes. Mas essa foi minha experiência.

No caminho espiritual nós buscamos aprender com a dor não porque amamos a dor em si. É simplesmente porque existe dor na vida e se treinamos lidar com ela antes, não se torna tão terrível quando aparece de surpresa.

Essa costuma ser a justificativa do motivo de sistemas educacionais focarem na competição, no estresse e no sofrimento: porque na vida teremos que lidar com competição, em fazer as coisas corridas e lidar com situações desagradáveis. Por isso, em colégios e universidades se foca em encher os alunos de provas, trabalhos, dar as disciplinas corridas e fazê-los trabalhar sob pressão, sob risco de rodar, etc.

É verdade que esse tipo de coisa funciona para o objetivo de curto prazo proposto, mas acho esse um raciocínio falho. Numa religião, por exemplo, ninguém é obrigado a meditar 5 horas seguidas logo de saída, ou rezar por horas seguidas de joelhos. Um praticante mais avançado pode optar por realizar essas coisas quando se sente pronto, após ter treinado muito.

É importante que se tenha a base forte. Após estudar e praticar muito, no seu ritmo, uma pessoa religiosa constrói fundamentos fortes para suportar a dor e somente assim a dor se torna um professor.

A dor pela dor não tem significado. Ela só tem sentido quando te ensina uma lição poderosa e nem sempre estamos preparados e temos maturidade para ela.

É verdade que algumas pessoas têm um ritmo muito lento (usando como parâmetro de comparação "os outros"), mas eu não acho que esse ritmo deva ser resolvido às chicotadas.

Nem todos os colégios e universidades são assim. Nem todos os professores adotam esse sistema. Mas eu observo cada vez mais como o sistema educacional como um todo alimenta esse pensamento.

Por isso eu não canso de dizer que gosto do Kumon. Lá para aprender matemática, por exemplo, é uma beleza. Quem tem dificuldade faz exercícios básicos várias vezes até se acostumar. Quem já está  mais avançado consegue passar para os estágios mais a frente do Kumon bem rápido (lá tem até cálculo) e todos se beneficiam.

Claro que pode haver pessoas que não gostam desse método e elas têm todo o direito de pensar assim (já vi um professor criticando o Kumon porque aprendemos como se faz e não o motivo de fazer). Mas eu acredito no aprendizado por meio de repetições graduais, com o nível de dificuldade subindo gradativamente e não de forma súbita. Pelo menos funciona para mim. O aprendizado é natural. Claro que se pode usar essa técnica junto com outras e cada uma fortaleceria uma área.

Existe um pouco de dor envolvida em qualquer tipo de aprendizado. A própria repetição não deixa de ser uma dor para alguns. Por isso cada um deve ter o direito de optar pelo método que acha melhor.

É claro que isso é difícil de adotar numa universidade. Uma vez perguntei para um professor porque ele não dava a opção de a pessoa escolher fazer ou prova ou trabalho. Ele disse que havia feito isso uma vez: a maior parte optava pelo trabalho, no final ninguém fazia com antecedência e pedia a prova.

Realmente não seria fácil bolar um sistema universitário em que cada um aprenda no seu ritmo e com os métodos que prefere (deve ter umas poucas universidades alternativas que tentam algo assim). Mas não acho que a solução atual seja a melhor. Todos, em colégios ou universidades, estão sempre correndo para dar a matéria. Em vez de fortalecer as bases para que possamos entender, nos fazem decorar. 

Quando entendemos, decorar se torna muito mais fácil. Nem precisamos decorar certas coisas, que automaticamente gravamos pelo entendimento. Quando decoramos de forma apressada e de qualquer jeito, sem critério, esquecemos facilmente.

E então as instituições de ensino culpam os alunos em vez de tentar melhorar o método de ensino.

Por exemplo, conheço muitas pessoas que largaram cursos de ciência da computação ou engenharias. Nunca comecei a fazer cursos da área de exatas e nem pretendo, mas fico sinceramente triste com os relatos.

Tenho amigos e conhecidos muito inteligentes e com muito potencial para seguir nessas áreas, mas que infelizmente abandonaram o curso após um ou dois anos devido a problemas. E que problemas são esses?

O problema é que a matemática ensinada no colégio (e a física também, mas vamos nos focar na matemática) pode fazer bastante sentido para o professor, que já tem uma base forte, mas não faz sentido para os alunos, que ainda precisam desenvolver um raciocínio matemático básico. O resultado é que os alunos apenas decoram o que fazer na hora da prova e depois esquecem.

O pobre professor de matemática nem sempre tem culpa, já que é pedido dele que ensine um bilhão de conteúdos num tempo ridículo, principalmente no ensino médio, com foco de apenas passar no vestibular.

Então alunos que vão para a universidade para a área de exatas, principalmente engenharias, e se deparam com mais um bilhão de matérias difíceis para decorar, ficam frustrados.

Eles sinceramente se interessam pelo conteúdo e gostariam de entender, mas não dá tempo! Para passar nas provas, não têm outra escolha a não ser decorar.

E ninguém quer ficar dez anos numa graduação, mas em boa parte dos casos esse é o destino de quem estuda medicina e engenharia. E no caso do médico, ele gasta ainda o tempo extra para ser aprovado no curso.

Por que tudo isso acontece? Faltam professores para dar aula para tantos estudantes, então a competição fica acirrada. E faltam professores e profissionais exatamente porque o sistema de ensino força esses estudantes com potencial a largar o curso devido a erros graves no próprio sistema. Essas desistências custam tempo e dinheiro para todos, exatamente o que a universidade alega querer economizar com seus métodos duvidosos.

Então as pessoas se sentem culpadas, porque "não se esforçaram o bastante", porque queriam ter o mínimo de tempo para hobbies e vida social além de estudar.

Acho isso tudo gravíssimo. Nós valorizamos uma cultura do sofrimento, na qual estudar 30 horas para uma única prova é visto como totalmente aceitável e comum.  

As pessoas perdem cinco, dez, vinte anos de vida estudando para passar no vestibular, para sobreviver numa universidade corrida na qual não aprendem, decoram, e tudo isso sob o pretexto de se tornarem "bons profissionais" através da dor e correria, mas isso só tira deles tempo, além da possibilidade de conhecimento genuíno e causa sofrimento desnecessário.

Quem perde com isso são tanto as pessoas quanto o próprio país. Sim, há coisas que se deve decorar e é difícil entender, mas existem diferentes métodos para decorar de forma facilitada e menos traumática (exposição constante e regular por livros, etc) em vez de fazer isso de um dia para o outro porque o aluno está matriculado em dez disciplinas e fazendo quarenta créditos por semestre. 

Bem, vou parar por aqui. Sei que algumas pessoas possuem opiniões diferentes a respeito disso e sei que essa situação não é tão simples de resolver quanto parece. Mas eu estou cansada de ver gente justificando esse sistema falho, argumentando que esses estudantes precisam correr atrás para se tornar iguais aos outros estudantes que tiram notas altas, não dormem, não têm vida social e tomam Ritalina. Eles vão se tornar profissionais que continuam tomando Ritalina e não dormem e vão morrer aos 50 anos de ataque cardíaco.

Tenha um ótimo dia!


Comentários

  1. Oi,Wanju.
    Tenho acompanhado suas ideias com muito interesse e tenho planos de ler seus livros ( principalmente o último ( aja fôlego).
    Gostei demais do seu comentário sobre O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO ,de Hermann Hesse ( mas, DEMIAN é o meu predileto ,rsss).

    No seu texto acima , pensei que faria uma crítica ácida à cultura do sofrimento imposto pelas religiões, principalmente a prática de queimar na fogueira as mulheres "bruxas", atividade "exemplar do cristianismo chamada de SANTA INQUISIÇÃO (você, por exemplo, não escaparia se vivesse naquele tempo).
    Mas,para minha boa surpresa, você se enveredou pelos caminhos de como se absorve conhecimento ,pelo desenvolvimento da cognição e como velhos métodos pedagógicos entravam o potencial de cada pessoa.O texto me interessou porque a cognição é uma área que tenho pesquisado muito ultimamente.

    Grato por tudo

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    1. Olá! Fico feliz que tenha gostado!
      Acho que já escrevi um texto sobre a Inquisição, mas agora não lembro onde está. Eu tenho várias opiniões sobre isso. Tem o fato de a Inquisição ter ocorrido de forma diferente entre católicos e protestantes.
      O mais engraçado é que livros sobre a Inquisição são muito diferentes entre si, dependendo se foram escritos por cristãos ou não cristãos.
      Se eu vivesse numa época de Inquisição, imagino que eu nem cogitaria (ou talvez nem me interessasse) em me envolver com ocultismo. Eu provavelmente seria cristã com mais segurança porque não haveria tantas opções de religiões. Hoje em dia é complicado escolher com tantas escolhas e liberdades hehehe (brincadeira, eu gosto de liberdade) :)

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  2. Você tem um "queda" pelo cristianismo.Há um vídeo recente seu em que vc diz que ele favorece a comunicação com o povo mais humilde.Concordo.Mas, os Edis Macedos da vida e sua legião dominam muito bem essa linguagem FIGURADA e a mente, quando escrava da imagem, se torna "alucinada".
    Acho você incrivelmente talentosa e inteligente ( é admirável a quantidade de livro que vc escreveu e, ler O JOGO DAS CONTAS DE VIDROS várias vezes não é tarefa para um ser "normal",heheehe).Mas, a sua "quedinha" para o cristianismo, uma religião que já deu seu tempo me traz um leve desconforto.Mas, nada que diminua minha admiração e reconhecimento de seu trabalho.
    Vou começar a ler suas obras pelos livros referentes à magia do Kaos.

    Gratidão pela sua doação de experiências subjetivas e concretas.

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    1. Brigada!
      Minha defesa do cristianismo possui a intenção de causar um leve desconforto. Eu defendo sinceramente e às vezes também faço isso como "piada", da mesma forma que às vezes defendo monarquia e feudalismo. Na magia do caos o Peter Carroll diz que nenhum paradigma é mais verdadeiro que outro. Isso significa que nem a própria magia do caos é melhor ou a verdade. Paradoxalmente, até isso que ele defendeu não é verdade.
      Sim, existem pessoas que exploram os outros, mas isso existe em todas as religiões e meios. No ocultismo, as pessoas vivem falando dos "magos picaretas que enganam os outros". Há cursos falsos de ocultismo em que eles cobram milhares de reais, ou feitiços para amor, etc, que custam esse preço e as pessoas pagam. Qual é a diferença disso para os "Edis Macedos"?

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  3. Perfeito!!!
    Mas, não estou na polaridade cristianismo x ocultismo!
    Ambos exploram a linguagem FIGURADA ,característica da mente infantil, inculta ou do inconsciente coletivo.Quando critico o cristianismo enfatizo o seu domínio histórico,intelectual e espiritual durante séculos sobre a humanidade!
    E você mesmo escreve que as ideias que "estruturam" a mente ou psiquismo são datados e post antigos que você escreveu não mais fazem sentido para o presente que muda a mente e muda a circunstância!

    Eu penso que MAGIA é criar! É criação a partir dos Kaos !
    E não há nada de original nisso ! Kant já anunciava que do caos nasce a luz!!

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    1. O bom Kant, mesmo antigo continua atual :)
      No meu caso minha cabeça muda de ideia muito rápido, então um post que escrevi mês passado pode já estar meio desatualizado em relação ao que defendo hoje. Claro que isso acontece com todas as pessoas, mas há aqueles que mantém certa consistência nas coisas que acredita por mais tempo. Aparentemente, há vantagens e desvantagens nas duas abordagens.
      Há ideias do Kant que ainda podem valer hoje e outras apenas para a época dele. É o mesmo caso ao estudar cristianismo, budismo e outras religiões e filósofos antigos.
      Daqui cem anos, provavelmente vai ter várias coisas na magia do caos meio fora de moda. Na verdade, há coisas que os criadores defendiam há algumas décadas que já nos parecem estranhas.
      O mundo muda rápido, mas o ser humano busca mais ou menos as mesmas coisas em todas as épocas.
      Concordo que magia é criar! Criação a partir do Kaos, é isso aí, tudo de bom!!
      Mas também é possível criar a partir de conceitos mais ou menos prontos. Se uso a língua portuguesa estou criando algo não do zero, mas dentro da cultura em que a linguagem foi criada e ela carrega isso. Mesma coisa se uso uma técnica de arte, um tamanho determinado de folha de papel.
      Eu não crio do zero quando uso a magia do caos, mas no interior de paradigmas limitados com os quais tive contato.
      Existem belíssimos romances baseados em ideias cristãs, como As Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis. Tolkien também se baseou bastante no cristianismo, mas foi mais sutil.
      Por isso, acredito que qualquer coisa pode ser inspiração e escolhemos um paradigma a outro por preferências pessoais diversas.
      De fato, o cristianismo dominou a cultura ocidental por séculos, por mais de um milênio. Mesmo hoje, mais da metade da população é cristã ou muçulmana. Se é assim, deve haver algo de valor nessas religiões, pois não acho que metade da humanidade acredita nelas por falta de inteligência.
      Como em certos círculos intelectuais o cristianismo é cada vez menos popular, eu quis explorá-lo exatamente por isso: para descobrir qual encanto há nele, pois eu gosto de pensar que há coisas boas espalhadas pelos cantos mais improváveis.

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  4. Grato pela paciência,filha da tolerância ,pois compartilho de grande parte de seu argumento!

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    1. Eu que agradeço! As questões levantadas por ti geraram um ótimo debate!

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