A Noite Escura do Caos: Capítulo 3: Noite Escura da Alma




(Leia a partir da Introdução)



Capítulo 3: Noite Escura da Alma


O livro “A Noite Escura da Alma” é dividido em duas grandes partes: a Noite do Sentido e a Noite do Espírito.
São João da Cruz chama de “avarento espiritual” aquele que deseja progredir no camnho espiritual o mais rápido possível e entrega-se a práticas fortes de jejuns, orações, meditações, etc. Porém, na maior parte das vezes isso é feito tendo em vista sentir o que o praticante pensa ser um "êxtase espiritual" mas que na verdade trata-se de um êxtase dos sentidos. A gula espiritual é semelhante, quando o praticante encontra-se embriagado por tais sensações, totalmente cego pelas suas práticas e deseja senti-las mais e mais, cometendo aqui o pecado do orgulho espiritual, achando-se melhor que os outros por praticar com mais intensidade (sendo que ele só está julgando pelo lado de fora e não pelo de dentro, que é impossível julgar). Entra aqui também a ganância espiritual e a luxúria espiritual, pois o praticante apenas quer mais e mais daquela sensação, chegando a sentir um prazer quase sexual, o prazer dos sentidos. Ele só quer satisfazer a si mesmo com tais práticas e não realmente compreender e aprofundar sua espiritualidade.
A Noite Escura da Alma ocorre quando a pessoa para de sentir essas sensações de êxtase e fica desesperado, numa espécie de crise de abstinência. Afinal, se alguém realiza uma prática puramente pelas sensações dos sentidos, por mais elevadas que elas pareçam, não poderá ficar satisfeito, pois as coisas do mundo não duram e essa pessoa não sentirá essas sensações para sempre.
O raciocínio é o seguinte: supomos que uma pessoa largou os prazeres do corpo para buscar os prazeres do espírito. Então ela se maravilha com os êxtases espirituais e todo seu alimento vem deles. No entanto, quando ela os perde, fica sem nada: sem prazeres do corpo e sem prazeres do espírito, o que causa uma grande dor. Ela fica entre os dois mundos, sem ter o consolo nem de um e nem de outro.
No livro é usado o termo “guerra da noite escura” pois se trata de uma batalha espiritual, como a que Jesus teve com o diabo no deserto. É nesse momento em que se perde tudo que a alma é tentada.
Normalmente, na nossa vida diária, temos vários consolos para nos afastar da dor inerente à existência. Podemos dormir, comer, ler livros, assistir filmes, jogar jogos, dentre muitas outras distrações. Enquanto temos essas diversões, muitas vezes o sofrimento não nos atinge ou chega em baixa intensidade.
A ideia de uma batalha espiritual solitária é colocar o corpo e a mente em estado “de deserto”. É o que o cristianismo chama de “secura espiritual” (o antigo pecado da “melancolia”, que depois virou “preguiça”).
Isso se chama “se colocar à prova”. Alguns dizem que a vida é um jogo e Deus nos colocou nesse mundo para que passemos por um teste. O teste de cada pessoa é diferente. Ele deseja ver como nos saímos nas diferentes adversidades que a vida nos apresenta.
Mesmo uma pessoa que não acredita em Deus e espiritualidade, eventualmente irá se deparar com dor e morte. Se a vida fosse apenas matéria, talvez fizesse pouco sentido que essas coisas existissem. Faz muito mais sentido quando colocamos a variável “espírito” na jogada. As regras do jogo se tornam mais claras.
O termo deserto e secura espiritual possui relação com a ausência de água. Existem os mais diferentes tipos de jejuns. Um jejum sem nenhum tipo de comida ou água (comum no islamismo) seria o mais difícil. Isso é colocar literalmente o corpo em estado de deserto.
No cristianismo existem as vigílias, que significa asbter-se do sono, não dormir ou dormir pouquíssimo. E um corpo que não possui o básico para viver (sono, comida e água) atinge um estado de completo abandono e angústia. As coisas materiais não podem mais consolá-lo.
E como se prepara um deserto para a mente? Abstendo-a de diversões. Os antigos padres do deserto abstinham-se até mesmo de livros, para não se sentirem tentados.
Tirar os consolos do corpo e da mente é a Noite do Sentido. Você não tem mais nenhum objeto para satisfazer seus sentidos físicos e isso o mantém em estado de escuridão. Esse estado é necessário para reproduzir a solidão do deserto.
Agora que você se preparou do lado de fora, irá se preparar por dentro. No caso do cristianismo, irá inflamar-se de orações. No caso do budismo, irá realizar uma meditação profunda.
Tudo está bem quando você consegue alterar seu estado de consciência e manter-se em jhana. Tudo está maravilhoso quando Deus responde suas orações e quando ele te presenteia com o êxtase do espírito.
Mesmo quando você está com fome, sede e sono (excetuando-se aqui casos extremos), enquanto você tem o êxtase espiritual, Deus, o Anjo, ou quaisquer deidades para te consolar, ainda há esperança.
Mas o objetivo da noite escura é não ter esperança. É destruir tudo e te deixar sem nada.
No cristianismo místico é dito que, quando Deus vê que a alma está pronta, ele se afasta. Ele te deixa num estado de noite escura para te testar, pois é somente através dessa noite que a alma poderá avançar espiritualmente.
Na Bíblia é dito:
“Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mateus 4:1).
Ou seja, o próprio Espírito Santo o conduziu ao deserto, para que ele fosse propositalmente tentado pelo diabo. E para isso jejuou por quarenta dias e quarenta noites, assim como Elias.
O objetivo da tentação e da noite escura é o de estar sozinho com o diabo. Deus não te ajuda nesse momento porque deseja te presentear com o livre-arbítrio de ceder à tentação ou de superá-la.
 A noite escura é aquele momento da vida em que sentimos que não temos nada. Assistir um filme parece sem graça, não dá vontade de sair de casa, de ver pessoas, até acordar é doloroso. Nem família, nem amigos, nem Deus, nem ninguém parecem ser capazes de chegar a nosso coração. Ele está imerso num deserto e numa solidão profunda.
A psicologia moderna chamou esse fenômeno de depressão. Esse era um estado que já era conhecido pelos antigos há muito tempo. Hoje em dia a depressão é tida como um fenômeno contemporâneo da nossa rotina agitada, mas ele jamais foi algo recente. A humanidade sempre conheceu essa sensação e a descreveu em livros.
Sempre achei o termo “melancolia” belíssimo para descrever esse estado de espírito. E considero o cristianismo nada menos que genial ao transformá-lo em poesia, descrevendo-o como uma batalha espiritual contra o diabo. Afinal, é exatamente isso que acontece.
Deus nos abandona quando mais precisamos. Estamos no fundo do poço e Deus desapareceu, não está lá. Ele sempre respondia nossas orações quando as coisas iam bem. E agora que tudo vai mal, ele desapareceu!
Muita gente, sem conhecer a descrição da literatura sobre a noite escura da alma, deixa de acreditar em Deus quando coisas ruins acontecem na vida e não há resposta. No entanto, de acordo com a descrição dos santos, é exatamente assim que deve ser. Foi assim com Jesus também.
“Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: ‘Eloí Eloí, lamá sabactâni?’ que significa: ‘Meus Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?’ Quando alguns dos que estavam ali ouviram isso, disseram: ‘Ele está chamando Elias’” (Mateus 27: 46-47).
Eu considero particularmente interessante a parte em que as pessoas acham que Jesus está chamando por Elias. Afinal, Elias também teve seu período de tentação no deserto, sua noite escura.
Outra história fascinante sobre isso no Antigo Testamento é o Livro de Jó. A história começa com Deus perguntando a Satã o que acha de Jó (é bastante divertido ver Deus e o diabo tendo uma conversa informal na Bíblia, quase como velhos amigos). Satã diz que Jó só tem fé porque é rico, tem filhos bondosos e tudo do melhor. Para descobrir se é verdade, Deus dá a permissão para que Satã tire de Jó tudo que ele possui, para testar se ele ainda assim terá fé.
Jó fica desesperado com a perda dos filhos, dos amigos e de tudo que possui, mergulhando em completa pobreza e doença, mas mantém sua fé. E não foi fácil fazer isso. Ele passou por uma terrível noite escura e esse livro relata com poesia e beleza sua dor.
Em “A Noite Escura da Alma” diz São João da Cruz:
"De fato, é necessário à alma permanecer neste sepulcro de obscura morte, para chegar à ressurreição espiritual que espera". 
Sentir as dores da noite escura seria uma etapa necessária e indispensável no caminho espiritual. Sente-se uma sensação parecida com a morte e somente aquele que aceita essa morte poderá atravessar o abismo. Na cabala, ele é chamado de Abismo de Daath.
A existência dessa etapa não significa que o praticante está regredindo em seu caminho e sim avançando. Muita gente, ao sentir essas sensações ruins e extremamente dolorosas ao mexer com espiritualidade, recua ou até se afasta definitivamente do caminho espiritual, pois não suporta a sensação desconfortável. Porém, é necessário queimar-se nesse fogo, como se fosse um ritual de cremação para renascer para o espírito (o fogo do Espírito Santo).
Diz São João da Cruz:
É como se fosse um imenso deserto, sem limite por parte alguma, e tanto mais delicioso, saboroso e amoroso, quanto mais profundo, vasto e solitário. E a alma aí se acha tão escondida, quanto se vê elevada sobre toda criatura da terra. Este abismo de sabedoria levanta, então, a mesma alma, e a engrandece sobremaneira, fazendo-a beber nas fontes da ciência do amor”.
"Quando assim acontece, no tempo em que o anjo bom começa a comunicar à alma a espiritual contemplação, ela não pode recolher-se no esconderijo secreto da contemplação tão depressa que não seja vista pelo demônio; e, então, ele a acomete com impressões de horror e perturbação espiritual, às vezes penosíssimas".
"Torna-se precisa, contudo, uma observação: quando o anjo bom permite ao demônio a vantagem de atingir a alma com este espiritual terror, visa purificá-la e dispô-la, com esta vigília espiritual, para alguma festa e mercê sobrenatural que lhe quer conceder Aquele que nunca mortifica senão para dar vida, e jamais humilha senão para exaltar". 
É a velha questão do argumento do mal: por que existiria mal num mundo com Deus? Para que seja possível percorrer o caminho da moralidade, queimar-se nesse fogo e renascer dele.
Na verdade existe um termo em latim usado no cristianiso para essa sensação de vazio/depressão/noite escura. Ele se chama “acedia” que hoje é o termo usado para o pecado capital da preguiça, mas também pode significar “apatia”, “fadiga” e “exaustão”, como se estivéssemos cansados da vida e do mundo. Até respirar parece difícil.
Os monges da Idade Média, com pouquíssimas distrações nos mosteiros, conheciam muito bem essa sensação. Eles sabiam o que era ficar profundamente entediados a ponto de sentir um vazio. Eu diria que eles eram verdadeiros mestres em saber como lidar com o tédio sem o auxílio de internet e televisão, então preste atenção nas dicas da literatura cristã para lidar com isso, pois são inestimáveis.
Hoje em dia você pode receber dicas vagas como “faça um curso de cerâmica” ou “saia com os amigos” sem explorar em profundidade a causa dessa sensação. Ela pode, sem dúvidas, ter origens materiais e mentais, mas existe também uma explicação espiritual. Todas elas podem ser exploradas e uma ajuda a outra.   
E como combater a melancolia? O cristianismo ensina que é através da virtude da disciplina. Anteriormente eu falei a respeito da disciplina e do “aprisionar-se” através de certas regras como sendo aquilo que nos leva à liberdade.
Pois bem, essa aparente prisão da disciplina também é exatamente aquilo que afasta o tédio, o vazio e a depressão. Por isso eles conseguiam lidar com o tédio no mosteiro, com a vida extremamente disciplinada que tinham.
Na época em que vivemos, isso é traduzido por “faça várias atividades”, como se matricular num curso de línguas, sair para caminhar, etc. É verdade que essas coisas podem alterar as causas físicas do tédio, pois alimentar-se bem, realizar atividades físicas e pegar sol influenciam diretamente no humor. Mas isso não é tudo. O objetivo não é encher seu calendário de atividades para não ter tempo de pensar nas causas do seu sofrimento.
Pelo contrário, o objetivo de travar uma batalha com o diabo é o autoconhecimento. Não queremos que você fuja da batalha, mas que vença. Nesses episódios de batalhas no deserto, Jesus e Elias no final recebem a presença de anjos que os presenteiam com comida.
É claro que você não precisa vencer todas as vezes. Já falei antes sobre o valor de falhar incontáveis vezes para sentir-se confortável com o fato de que somos seres humanos e podemos errar e cair.
O problema que vejo com alguns conselhos no estilo de autoajuda é que frequentemente o aspecto espiritual não é levado em conta. Nesse paradigma, você tem sucesso quando sua mente está em paz ou quando você conquista alguma coisa no plano material (saúde, um emprego, etc).
Todas essas podem ser coisas de valor, mas não é a história completa. Também já mencionei sobre como os nossos objetivos mudaram através dos tempos. Hoje a meta é ter paz, riqueza, beleza, fama e saúde.
Se é verdade que a vida aqui na Terra é um teste, você não ganha o jogo quando consegue essas coisas. Você pode vencer o jogo dos humanos sendo famoso e poderoso, mas será que é assim que se vence o jogo dos Deuses? Será que eles não jogam jogos diferentes?
Eu acredito firmemente que sim. O jogo espiritual é um pouco diferente do jogo da sociedade. Mas você não precisa substituir um pelo outro. Você pode ao mesmo tempo dialogar com humanos e Deuses, e harmonizar os seus mundos.  
É aí que chegamos na Noite Escura do Caos. Até aqui só falei da Noite Escura da Alma, tal como descrita por São João da Cruz. Na época dele o jogo espiritual tinha muito mais importância que o jogo material e o espírito era considerado num grau mais elevado que a matéria.
É verdade que diferentes jogos são jogados simultaneamente nas mais diversas épocas. Mas vivemos hoje em tempos peculiares. O jogo humano da fama e riqueza não nos completa. Mas nós não precisamos necessariamente abandonar esse mundo e nossos valores.
É possível ficar em paz com o mundo, perdoar a humanidade e a nós mesmos. Nós cometemos incontáveis erros, mas também já acertamos incontáveis vezes. E por isso viver esse simpático jogo que os humanos criaram, com todas as suas limitações, ainda vale a pena. Não somos perfeitos, mas somos incrivelmente criativos.
Nós não precisamos competir com os Deuses e, cheios de orgulho, optar por viver uma vida meramente material porque não suportamos a ideia de alguém acima de nós mesmos, como Lúcifer. É claro que Lúcifer também conquistou o seu valor como exemplo de um rebelde da contracultura.
Mas eu gosto de pensar nos Deuses como aliados. A seguir, falarei um pouco da noite escura que vivenciamos hoje e sua relação com a magia do caos.  
   



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