A Noite Escura do Caos: Introdução



A Noite Escura do Caos

Introdução


Li “Nightside of Eden” de Kenneth Grant em 2011. Na resenha da obra que escrevi naquela época, eu observei o seguinte: “Planetas, números, animais, chakras, cores, glifos ou qualquer coisa que exista nesse mundo, pode ter certeza de que o senhor Grant vai encaixar no seu castelo”.
E o que é esse castelo? Os diagramas da Árvore da Vida e da Árvore da Morte. A literatura judaico-cristã está repleta de termos referentes a uma progressão espiritual. Na cabala é possível avançar através das sephiroth e qliphoth. A meta é escalar os ramos da árvore, rumo à sua raiz. E há o Abismo. Daath é o local onde reside o dragão de oito cabeças.
Santa Teresa d’Ávila possui uma obra chamada “O Castelo Interior”. Esse livro, baseado em êxtases místicos, conta a jornada da alma humana rumo à ascensão espiritual. Deus reside na sétima e última morada. A alma humana seria um castelo de diamante, repleto de portas, quartos e andares. Nossa missão é explorar esse castelo até atingir as alturas.
No livro “A Noite Escura da Alma” São João da Cruz descreve os dez degraus da escada que é preciso subir para chegar a Deus. São João Clímaco também escreveu sobre os dez degraus da escada, também chamada de “escada de Jacó”. Na Bíblia Jacó teve um sonho com essa escada que levaria o homem até o céu. A Torre de Babel foi uma tentativa frustrada de chegar ao céu de forma puramente material, esquecendo o espírito.
Em “The Jhanas” Ajahn Brahmavamso diz que os oito jhanas (oito absorções mentais que se deve atravessar para chegar à Iluminação) são como oito quartos de uma casa. Porém, para chegar ao segundo quarto é preciso atravessar o primeiro. Para chegar ao terceiro é preciso passar pelo segundo e assim por diante. Existe uma ordem que segue leis físicas, mentais e espirituais para que as coisas sejam dessa forma.
No mundo material nós percebemos que existe certa ordem aparente e uma possível causa e efeito para os eventos. Por analogia, imagina-se que exista algo assim também para os mundos mental e espiritual.
Nós construímos mapas para representar a realidade, mas não significa que as coisas sejam exatamente assim. Com base em modelos teóricos e práticos fornecemos um guia para que cada um possa iniciar sua jornada. Regras e símbolos são muito bons para que possamos ter uma vaga ideia a respeito de existências que se encontram além da razão e do maquinário que usamos para mensurar a realidade.
Existem realmente um Éden, uma Árvore da Vida, uma alma e um Deus? Podemos responder a essas perguntas usando modelos. Quanto ao “sim” e o “não” ambos são verdadeiros dependendo do paradigma utilizado. Caso o interior do paradigma possua uma consistência interna, ele pode ser usado com sucesso para obter certos resultados.
Muitas vezes quem responde “sim” e “não” estão falando exatamente da mesma coisa, mas usando linguagens diferentes. E nos desentendemos devido a problemas de linguagem e não de ideias, como numa Torre de Babel.
Inicialmente pensei em nomear esse livro de “Lado Noturno do Caos” em homenagem à obra de Grant. Lembro que há uma passagem em "Nightside of Eden" em que Grant descreve um ritual que realizou com sua esposa, Gerald Gardner e outros companheiros de magia, usando um sigilo que Austin Osman Spare preparou para ele. Depois de passar uma tarde na residência de Gardner, eles se dirigiram até o aposento alugado especialmente para a ocasião por uma das magistas, que também era cafetina e prostituta. O ritual foi interrompido pelo som da campainha. A visita era o proprietário de uma livraria de ocultismo que, ao saber que Grant estava lá, preferiu não subir (e isso porque o proprietário da livraria conhecia a associação de Kenneth Grant com Aleister Crowley).   
Kenneth Grant foi o grande divulgador da obra de Austin Osman Spare. Peter J. Carroll se baseou fortemente nas ideias de Spare para o desenvolvimento da magia do caos.  
No final, optei por usar a referência de São João da Cruz, denominando o livro de "A Noite Escura do Caos". Mais adiante falarei mais sobre o conceito da noite escura e sua relevância para o ocultismo. 
 Em "Nightside of Eden" obtemos mais informações sobre um lado mais obscuro da história do jardim do Éden bíblico. O autor traz diferentes versões da história, incluindo narrativas apócrifas e a interpretação judaica que envolve Lilith.
E por que a história do Éden traz tanto fascínio? A princípio, pode parecer frustrante que algo tão trivial quanto comer um fruto possa causar a queda de toda a humanidade. Mas a natureza, e possivelmente Deus, não existem necessariamente para satisfazer o intelecto humano e nossos sentidos físicos. Temos a tendência de achar que todo o mundo material e espiritual existem com o objetivo de agradar o ser humano, mas provavelmente não é assim. Criticamos os Deuses porque suas ações podem não corresponder ao conceito humano de justiça, bondade e liberdade.
Segundo Protágoras, "o homem é a medida de todas as coisas". Mesmo que não seja de fato assim, é o padrão de referência que possuímos. Temos essa alternativa para jogar com a sorte ou vagar na escuridão.
Há algo a aprender com a dor e com o lado escuro do mundo e de nós mesmos. Frequentemente esse ensinamento é mais importante que nosso conforto. Isso tampouco significa que o prazer e a alegria não tenham seu papel na jornada. 
Tanto a luz quanto a escuridão podem ser valiosos aliados. O caoísta deve adquirir a habilidade de usar diferentes máscaras e interpretar variados papeis no teatro cerimonial do mundo. Isso às vezes significa dar as mãos aos seus inimigos. Nem sempre porque você os ama, como Jesus, mas porque amá-los traz resultados. É possível que essa seja uma inversão destrutiva do que entendemos por ética. Ainda assim, pode ser um ponto de partida para a compreensão de uma realidade mais profunda.
Na obra "O Grimório da Transmutação" de Felipe Bolzan, Nocto Machado e Lua Valentia, existe uma reflexão sobre a sombra, tanto pelo conceito de Jung como em interpretações que o transcendem. Nós vemos sombras lá fora, que também é o reflexo da sombra que carregamos em nosso interior. 
O cristianismo enxerga essa sombra como a mancha do pecado original com a qual estamos inevitavelmente marcados. Já os judeus e os muçulmanos não acham que o pecado original foi transmitido para a humanidade. Quem está certo?
Sinceramente, não importa muito. O conceito de pecado possui um sentido na lógica interna do cristianismo e pode ser válido, talvez apenas nesse paradigma. Em paradigmas em que não se usa o termo "pecado" como explicação, é preciso usar outras terminologias para substituí-lo, como karma, sombra ou sua palavra favorita. Para encarar seus medos de frente, você também pode optar por usar exatamente o termo que mais odeia.     
A psicologia contemporânea explica a mente humana com termos recentes, cujos conceitos já eram utilizados, com outros nomes, pelas religiões há milênios. Nós apenas precisamos substituir a linguagem e a simbologia regularmente para tornar a explicação mais palatável para as novas gerações. 
Cada época e cada pessoa possui seus fantasmas. Há os mais diversos métodos para lidar com fantasmas. Você pode ignorá-los, pode conversar com eles, pode tentar expulsá-los da sua casa à pontapés. Cada método possui sua utilidade para épocas e pessoas diferentes. E às vezes você pode ignorar, conversar ou expulsar fantasmas usando técnicas parecidas e obtendo resultados semelhantes. Você apenas se sente melhor chamando exatamente a mesma coisa de um nome ou de outro. 
Então isso significa que tudo é relativo, que nada é verdadeiro e que tudo é permitido? Se eu responder "sim", então nem tudo é relativo. No mínimo, essa resposta não é, o que destruiria a teoria. Isso de acordo com uma análise puramente humana, é claro. O que nós consideramos "lógico" pode não estar tão correto, mas por enquanto é isso que temos.
Existem certos limites do que podemos fazer em todas as esferas da realidade: mundo material, mental e espiritual. De acordo com Wittgenstein, "os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo". Mas até essa é apenas uma de muitas interpretações possíveis. 
O sofrimento que sentimos pode até não ser real num sentido físico ou metafísico, mas é real o bastante para nós. E esse "real o bastante" normalmente nos basta. Isso é ser pragmático. A magia do caos lida bastante com pragmatismo.
Nós não gostamos da noite escura. Ela é desagradável. Ninguém quer uma noite escura. Mesmo que seja para aprender, para amadurecer, no momento em que acontece ela é quase insuportável. Há momentos em que aceitaríamos vender a alma para o diabo somente para nos livrarmos dessa sensação.
Nossos resultados dependem dos contratos que fazemos. Você fez um contrato social, como Rousseau? Um contrato com sua família, com seus amigos, com seu amante, com seus Deuses ou consigo mesmo? 
Esse contrato é bastante poderoso? Há algo maior que o guia, acima de você mesmo e acima de sua própria dor? Nesse instante, essa dor tem um significado. Se o sofrimento possui ou não um significado intrínseco (se há um sentido universal para que exista dor no mundo, determinado pelos Deuses) é menos importante. O que nos interessa aqui é que você fez um contrato com alguém e determinou um sentido para seu sofrimento.
Você pode sofrer num relacionamento ou num trabalho, mas se há um sentido para aquilo, ou se o a recompensa compensa a dor, o contrato continuará a ser válido para você. A não ser que você decida assinar um contrato diferente e anular o anterior. Pode mudar sua devoção e trocar um Deus por outro. O resultado será prazeres e dores diferentes. Até mesmo escolher não adorar um Deus é um tipo de contrato com o universo. Da mesma forma que optar por não trabalhar e não ter relacionamentos são contratos implícitos que trazem seu posterior resultado, com perdas e ganhos. 
Conforme C.S. Lewis em "O Problema do Sofrimento: "Deus sussurra para nós em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita em nossas dores: elas são seu megafone para despertar um mundo surdo". E, nas palavras de Margaret Mead: "A virtude é quando se tem a dor seguida do prazer; o vício, é quanto se tem o prazer seguido da dor".
Não importa se aceitamos a noite escura antes ou depois. Eventualmente, ao menos uma vez na vida (e provavelmente mais vezes) ela nos assaltará. E, se soubermos reconhecê-la pelo que é, irá se tornar nosso maior aliado.    
A magia do caos é reconhecida por ser uma área da magia bastante otimista e piadista, repleta de banimentos por gargalhadas. E, de fato, o riso pode ser um dos nossos maiores companheiros. Os gregos antigos sabiam disso ao montar em seus teatros suas comédias e tragédias. Shakespeare sabia muito bem o papel de ambos na vida e como os dois eram simultaneamente opostos e complementares.  
Amor e morte, Eros e Thanatos. "O amor é tão forte como a morte" diz o Cântico dos Cânticos. "Filosofar é aprender a morrer" disse Michel de Montaigne. 
Aprender a lidar com a noite escura e talvez até a amá-la é uma das chaves para a revelação de grandes mistérios (fazendo uma lembrança do título de um dos livros de Eliphas Levi). A própria operação da magia de Abramelin possui uma etapa de luz e outra de sombra. 
A magia do caos é geralmente classificada no Caminho da Mão Esquerda (LHP) embora ela goste de considerar a si mesma "sem classificações". Ela pode se metamorfosear em qualquer coisa, como um camaleão: em magia negra, branca, octarina; em dia, em noite, em eclipse, em aurora boreal. 
Você pode alterar seu estado de consciência pela gnose excitatória, inibitória ou uma combinação de ambas. Pode usar métodos prazerosos, repulsivos e anotar seus resultados. Afinal, todos os caminhos te levam a algum lugar, nem que seja para o fundo do poço. Não que o fundo do poço seja totalmente desagradável. Quem sabe você ache uma água lamacenta. E se não tiver ninguém perto para te tirar de lá, talvez seja o momento daquele papo bom com suas deidades, para quem você andava tão atarefado para dar atenção.
Em "A Noite Escura do Caos" você irá se deparar com muitos lados do caos, que nem sempre são bonitos. Isso porque nós e o mundo não somos tão bonitos assim. Quer dizer, nós até somos quando botamos aquela maquiagem. Mas pense quando você está acordando sábado de tarde, de ressaca, depois da noitada. Até que você pegou uns gatinhos bem jeitosos na madrugada, mas imagina se eles te vissem agora! Menina, só meu maridão mesmo que aguenta essa bruxa! E eu aguento ele porque, né, tá no contrato assinado com lágrimas, sangue, sêmen... opa, opa! 
Nós gostamos do Caos porque ele é assim: um partidão nas sextas-feiras e um cachorrinho devorador de ossos aos sábados. É um cavalão e um potrinho manso. O Caos é selvagem e livre. E como pode haver magia quando não há controle? Será que tem como achar falhas na Matrix e um atalho para o Éden? Caso seu destino não tenha mudado, pois comer frutos já não é uma atividade tão tentadora no século XXI, com tantas opções melhores de porcarias maravilhosas e açucaradas no supermercado. 
Para começar nossa jornada, eu vou te convidar para uma festa: é dia 31 de outubro (mentira, hoje é 29 de julho, dia de Santa Marta. Falarei um pouco sobre ela em homenagem à ocasião) e as bruxas estão soltas! É um dia de escuridão e morte, mas todos estão alegres e rindo! Por quê? O portal conectando o mundo dos vivos e dos mortos foi aberto! Será esta uma tragédia ou uma grande sorte?
Aqui está um convite para a festa. Vamos iniciá-la no capítulo 1 e eu irei oferecer algumas fantasias e guloseimas. Como diria Peter Carroll em Liber Kaos: "Crie, destrua, aproveite, IO CAOS!" 




 Wanju Duli, Porto Alegre, 29 de julho de 2017





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