O Herói de Mil Faces, por Joseph Campbell




Acabei de fazer um vídeo sobre o livro, que você pode assistir aqui

Sei que eu já li no vídeo as partes que eu pretendia digitar nessa resenha, mas vou digitar mesmo assim, porque gosto de ter:

"Sempre que é objeto de uma interpretação que a encara como biografia, história ou ciência, a poesia presente no mito fenece. As vívidas imagens estiolam-se em fatos remotos de um tempo ou céu distantes. Ademais, jamais há dificuldades em demonstrar que a mitologia, tomada como história ou ciência, é um absurdo. Quando uma civilização passa a interpretar sua mitologia desse modo, a vida lhe foge, os templos transformam-se em museu e o vínculo entre as duas perspectivas é dissolvido".

Meus comentários sobre o trecho: os mitos e as religiões possuem uma função na vida dos povos e das pessoas. Eles tratam do sentido da vida e certamente envolvem filosofia e arte, mas muito mais que isso. Eles não se tratam apenas de um estágio primitivo de desenvolvimento humano que deve ser superado.

Eu considero equivocada essa ideia de que estamos sempre progredindo como uma escada, avançando cada vez mais em todos os sentidos. As guerras do início do século XX colocam em dúvida tais afirmações, assim como colocam em dúvida se o suposto progresso da ciência é o que a humanidade mais precisa. 

Quando nós perdemos nossa conexão com a ideia do divino ou quando perdemos nossa simples conexão uns com os outros, é difícil substituir isso com outras coisas. Não acho que psicologia, por exemplo, seja um substituto de religiões, assim como amigos não necessariamente substituem família, cachorros, etc. Cada um tem sua função na nossa vida. Assim como cada pessoa é única em sua individualidade.

Eu falo mais sobre o fenômeno da redução da religião a outras formas (moralidade, psicologia, etc) nesse vídeo.

Vamos a outro trecho do livro:

"Costuma-se descrever os festivais sazonais dos chamados povos nativos como esforços de controle da natureza. Trata-se de uma representação errônea. Há muito de desejo de controlar em cada uma das ações do homem, particularmente nas cerimônias mágicas às quais é atribuído o poder de provocar chuva, curar doenças ou conter a inundação; não obstante, o motivo dominante em todas as cerimônias de real sentido religioso (em oposição às da magia negra) é o da submissão aos aspectos inevitáveis do destino - e, nos festivais sazonais, esse motivo é particularmente manifesto"

Realmente lindo!

Tem um livro meu em que faço uma piada com isso. Em "Salve o Senhor no Caos" tem um personagem malucão que resolve fundar uma sociedade em que eles largam tudo e apenas se submetem ao destino. Acho que dei o nome do personagem de Cristiano, como uma referência indireta ao cristianismo.
 
Eu gosto dessa ideia de aceitar com serenidade algumas coisas que nos acontecem, como a dor e a morte. Nós devemos tentar melhorar o que estiver ao nosso alcance, mas haverá sempre coisas inevitáveis. Quando elas ocorrem temos duas opções: ou sofrer pelo que não podemos mudar ou ficar em paz com o destino que nos foi imposto por forças que não compreendemos.

Por isso eu gosto de religiões. A magia costuma lidar mais com a alteração da realidade e controle da natureza e de si. Mas nas religiões existe um aspecto de celebração da vida e da morte, se reconectar com os ciclos da natureza e da vida.

Os resquícios desses antigos rituais que ainda restam na vida moderna é, por exemplo, festas de aniversário e de Ano Novo. Em vez de ignorar o dia em que nós nascemos como uma data qualquer (o que teria mais relação com o espírito racionalista do século XXI) ou de lamentar porque estamos ficando mais velhos e mais perto da morte, nós comemoramos.

Celebrar coisas "bobas" como as voltas que a Terra dá em torno do Sol teria muito mais a ver com astrologia do que com o espírito moderno. No entanto, ainda comemoramos essas coisas "por tradição", mesmo por pessoas que criticam a tradição como algo ruim e antiquado. 

Esse é um ótimo exemplo para que céticos entendam o que as pessoas sentem em relação à religião. Não é apenas uma mentira ou um falso consolo, a não ser que você sinta isso nos seus aniversários, no Ano Novo ou em qualquer outra celebração simbólica que você faça. A alegria e a emoção sentidas naquele momento, em que estamos junto com nossos amigos, é completamente real.   

Eu teria muito mais a dizer sobre todos esses assuntos, mas como essa é uma resenha de um livro, para não fugir muito do tema vou parar por aqui.

Gosto da ideia da jornada do herói e acho que o autor usou essa teoria para mostrar as semelhanças entre as diferentes religiões, culturas e povos, o que é algo positivo. Apesar de usar a psicologia e teorias do seu século para muitas de suas interpretações, ele também aponta as limitações delas. Achei inteligente e humilde da parte dele.

Apreciei o autor e o livro. Peguei emprestado com a Amanda e curti a experiência. Aprendi vários mitos novos e me sinto feliz com isso. Gostei principalmente daquela história do filho que nasce no formato de um vaso. Achei totalmente encantadora. 



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