POLÍTIKAZZZ: Karl Marx vs. Jesus Cristo!!!




Estou sendo influenciada pelos livros de Gatolicismo do Ian Morais. Agora Marx virou Garx! O salvador ou o destruidor da política? Um rato de biblioteca que não esperava tornar-se um Deus.

Lá estava Marx muito feliz estudando Hegel até que... espere. Vamos voltar mais um pouco no tempo.

Revolução Francesa! Um evento catastrófico. Calma, calma. Foram só algumas cabeças cortadas em nome de algo maior. Socialismo? Calma, calma, foi apenas um dos maiores extermínios de cristãos em nome de algo maior.

Sempre em nome de algo maior do que nós mesmos, algo maior do que a vida humana. Eu não falei que o Deus cristão apenas mudou de nome?

Na Idade Média as pessoas morriam por Deus. Depois as pessoas passaram a morrer por causas diversas: por Marx, pelo progresso da ciência, pela "causa dos proletários" (quem, o que, onde?), pelos pobres (os cristãos morriam pelos pobres mas oh meu Deus, agora os ateus morrerão pelos pobres mais genuinamente porque não será em nome de um Deus imaginário). 

Senhoras e senhores, vamos imitar a internet, falar de política e xingar todo mundo! NINGUÉM escapará com vida: capitalistas, socialistas, esquerda, direita, centro, diagonal, TODOS serão exterminados e só restará a supremacia do FEUDALISMO, da MONARQUIA e de JESUS CRISTO NOSSO SENHOR REI SALVADOR SALVE SALVE! 

Muito bem, lá estavam os filósofos gregos ricos com seus escravos filosofando porque não tinham nada melhor pra fazer. E lá estava ESPARTA e lá estava Platão pagando pau para Esparta. Até que, droga, todos ficaram entediados e entraram em guerra.

Puta merda, fodeu, as guerras dos últimos séculos foderam todos os campos férteis e agora a galera tá morrendo de fome.

Os cristãos estão lá de boas, rezando em segredo nas catacumbas e sendo jogados para os leões até que Constantino viu IN HOC SIGNO VINCES e a partir daí os cristãos conseguiram adotar o seu socialismo voluntário mais abertamente.

Os cristãos eram geralmente pobres e compartilhavam sua pobreza, mas de vez em quando uns ricos se tornavam cristãos e MERDA agora estamos ricos demais, essa riqueza corrompe, até os filósofos gregos falavam disso, embora a maioria não fizesse muita coisa a respeito e ficasse só no papo.

Mas os cristãos eram diferentes dos filósofos gregos aristocratas e resolveram dar eles mesmos um jeito naqueles campos fodidos pela guerra em vez de mandar os escravos.

Nos primeiros séculos da Era Cristã começaram a surgir os MOSTEIROS inspirados pelo cristianismo ortodoxo russo. São Bento criou sua regra e logo começaram a pipocar centenas de mosteiros. 

(Wanju, esse é um post sobre política para de falar de cristianismo mdeusss não consigo resistirrrr)

Diz-se que no feudalismo existiam classes sociais rígidas e pouca mobilidade, mas a existência dos mosteiros proporcionou uma mobilidade significativa. Reis e príncipes largavam tudo e se tornavam monges. Simples camponeses podiam se tornar abades e abadessas de mosteiros. As mulheres acharam uma alternativa de vida a se casar e ter vinte filhos até morrer por complicações do parto.

Trecho do livro "Criação do Ocidente: a religião e a civilização medieval" por Christopher Dawson:

"Por meio da santificação do trabalho e da pobreza, o mosteiro revolucionou e subverteu completamente a ordem dos valores sociais da sociedade escravocrata do Império Romano, a qual também se expressava no ethos guerreiro-aristocrático dos conquistadores bárbaros, de forma que o camponês, que por tanto tempo fora o esquecido sustentador de toda a estrutura social, finalmente encontrava seu modo de vida reconhecido e honrado pela mais alta espiritualidade espiritual da época".

"Foi o incansável e disciplinado trabalho dos monges que acabou virando o jogo de atraso na Europa ocidental, um esforço que trouxe de volta o cultivo das terras, que se tornaram desertas durante a época das invasões"

Graças aos monges que, eles mesmos, com suas próprias mãos, cultivaram a terra, os campos voltaram a ser férteis! Os mosteiros costumavam se destacar pela hospitalidade. Hospedavam viajantes de terras distantes por algumas noites, ofereciam comida e até mesmo estudo, já que os mosteiros foram os grandes centros intelectuais da Alta Idade Média.

Até hoje, mais de mil e quinhentos anos depois, os mosteiros mantém essa tradição em quase todos os países. Vá em qualquer lugar do mundo, ache um mosteiro católico e receba hospitalidade, comida e ensinamentos, tudo gratuito, mesmo em meio ao mundo capitalista de hoje. 

Mais um trecho do livro do Dawson:

"Foi sobretudo na Islândia que os eruditos do século XII e XIII adotaram as tradições do rei Alfredo e fundaram a grande escola de historiografia vernácula e arqueologia, às quais tanto devemos em nosso conhecimento sobre o passado. Estamos aptos a considerar a cultura medieval como intolerante a tudo que esteja fora da tradição da cristandade latina, mas isso é um grande equívoco, e não podemos esquecer que as sagas do norte são criações da cristandade medieval, tão significativas quanto as canções de gesta. Aos padres e às escolas da Islândia cristã devemos a preservação da rica tradição da mitologia do norte, sua poesia e suas sagas" 

"Foi somente em tempos recentes que homens como A.N. Whitehead reconheceram que a própria ciência moderna simplesmente não poderia ter surgido caso a mentalidade ocidental não tivesse sido elaborada por séculos de disciplina intelectual escolástica a preparar o campo para a aceitação da racionalidade do universo e para o poder da inteligência humana em investigar a ordem da natureza"

É dito que foi o cristianismo que favoreceu o surgimento das universidades, especialmente na época de São Tomás de Aquino e da escolástica.

A vida do homem tinha um sentido: servir seu Deus e seu próximo. Ah, mas o ser humano consegue ferrar até com as mais belas religiões e sistemas filosóficos! 

A Igreja católica começou a adquirir muito DINHEIRO e PODER e associada ao governo começou a fazer guerras. Tanto as Cruzadas quanto a Inquisição não tinham objetivos meramente religiosos, mas possuíam uma associação com o "braço secular".

A Bíblia já havia nos alertado sobre os riscos de servir a dois Senhores, a Deus e ao dinheiro, e também havia alertado sobre o maior pecado de Lúcifer, o ORGULHO, que o levou a desejar o poder de Deus. 

Mas parece que esses senhores católicos só liam as partes da Bíblia que lhes interessavam ou nem liam a Bíblia, já que estava em latim e nem todos liam latim. No entanto, ir às missas podia te fazer escutar boa parte da Bíblia.

Vale ressaltar que principalmente na Baixa Idade Média havia muita venda de cargos eclesiásticos e que muitos leigos ricos que sabiam pouca teologia assumiam posições importantes na Igreja, então é óbvio que essas pessoas ferravam facilmente com tudo.

O fenômeno mais fantástico foi a existência de padres e papas inquisidores, especialmente os DOMINICANOS que eram os caras que mais conheciam alta teologia. Mas é principalmente porque conheciam e interpretavam muita coisa literalmente que queriam proteger a religião e acreditavam totalmente nela não como um metáfora. 

Eu não vou falar da Inquisição aqui porque senão hoje eu não durmo. Voltemos para a política.

Os BURGUESES começaram a enriquecer e formar uma nova classe social. Os comerciantes adquiriram muito dinheiro, mas ser parte da nobreza ainda dava mais status do que ter dinheiro, por causa do seu sangue, do seu sobrenome e dos seus títulos.

É claro que os burgueses não queriam estar lá embaixo na hierarquia de classes sociais e sim no topo. Eles queriam que dinheiro contasse mais do que nascimento e sangue. 

Por isso, eles derramaram muito sangue e mataram toda aquela galera cheia de títulos, aqueles reis fanfarrões, fenômeno muito nobre que foi chamado de "Igualdade, Liberdade e Fraternidade", vamos matar todo mundo para sermos iguais, livres e irmãos!

Fenômeno muito parecido com algo que depois foi chamado de socialismo. Vamos matar todo mundo para sermos iguais e livres, vamos salvar os proletários! Marx inventou uma classe social chamada "proletários" de difícil definição e resolveu que queria salvá-los sem nem perguntar para os proletários quais eram suas reais reivindicações e necessidades.

Para ler mais sobre essa crítica, sugiro o livro de Raymond Aaron "O Ópio dos Intelectuais". Eis um trecho:

"Quando o intelectual não se sente mais ligado nem à comunidade nem à religião de seus antepassados, pede às ideologias progressivas tomarem conta da alma inteira [...] São dogmatismos da doutrina e a adesão incondicional dos militantes que constituem a originalidade do comunismo, inferior, no plano intelectual, às versões abertas e liberais das ideologias progressivas e talvez superior para quem está à procura de uma fé. O intelectual, que não se sente mais ligado a nada não se contenta com opiniões, quer uma certeza, um sistema. A revolução traz-lhe seu ópio"
 
Bertrand Russell em sua Bíblia "A História da Filosofia Ocidental", no livro 3 diz sobre Marx:

"Se visto apenas como filósofo, Marx possui graves falhas. É demasiadamente prático, demasiadamente preso aos problemas de sua época. Seu horizonte se limita a este planeta e, nele, ao homem. Desde Copérnico, é evidente que o ser humano não possui a importância cósmica que um dia reivindicara a si próprio. Aquele que não compreendeu  isso não tem o direito de denominar científica a sua filosofia.
A essa restrição a questões terrenas, associa-se a propensão a acreditar no progresso como lei universal. Tal tendência caracterizou o século XIX, e existiu tanto em Marx quanto em seus contemporâneos  Foi somente a crença na inevitabilidade do progresso que permitiu a Marx prescindir de considerações éticas. Se o socialismo estava por vir, deveria ser um aperfeiçoamento. Ele reconhecia de bom grado que não seria avanço para os donos de terras ou para os capitalistas, mas isso só demonstrava que ambos estavam em desarmonia com o movimento dialético da época. Marx declarava-se ateu, mas conservou certo otimismo cósmico que apenas o teísmo poderia justificar"

E no Livro 2 diz o seguinte:

"O modelo judaico da história - composto de passado e futuro - exerce poderoso encanto sobre os oprimidos e desafortunados de todas as épocas. Santo Agostinho adaptou esse modelo ao cristianismo; Marx, ao socialismo. Para compreendermos Marx psicologicamente, devemos utilizar o seguinte dicionário:
Javé = materialismo dialético
Messias = Marx
Eleitos = proletariado 
Igreja = Partido Comunista
Segunda Vinda = Revolução
Inferno = punição dos capitalistas
Milênio = a nação comunista
"Os termos à esquerda dão substância emocional aos termos da direita e é essa substância emocional, com a qual estamos familiarizados todos os que receberam educação cristão ou judaica, que torna a escatologia de Marx crível. Um dicionário semelhante poderia ser redigido para os nazistas, mas suas concepções são mais veterotestamentárias e menos cristãs do que aquelas de Marx, ao passo que seu Messias é mais semelhante aos macabeus do que a Cristo"

A questão é a seguinte:

Na Revolução Francesa, a burguesia queria matar a nobreza. Na Revolução Socialista/Comunista/Marxista ou como queira chamar, os intelectuais defensores dos proletários queriam matar os burgueses. A não ser que fosse um tipo de socialismo que não defendesse a revolução, mas um desenvolvimento gradual. 

No livro "A Miséria da Filosofia" Marx cita a feminista George Sand, dizendo:

"O combate ou a morte: a luta sanguinária ou o nada. É assim que a questão está invencivelmente posta"

Proudhon rejeita essa ideia, dizendo:

"Vamos dar ao mundo o exemplo de uma tolerância sábia e previdente, porém, porque estamos encabeçando o movimento, não nos façamos chefes de uma nova religião; essa religião seja a religião da lógica, a religião da razão. [...] Não devemos absolutamente por a ação revolucionária como meio de reforma social, porque esse pretenso meio seria tão somente um apelo à força, ao arbitrário, em uma palavra, uma contradição"

Mas não foi Proudhon quem venceu a luta pela sobrevivência da teoria política que ficaria em voga no século XX.
 
Os privilégios de sangue do feudalismo foram substituídos pelos privilégios do dinheiro do capitalismo. Será que foi uma boa substituição? Difícil dizer.

G.K. Chesterton levanta a questão de que embora atualmente sejamos geralmente contra que haja hereditariedade do poder na política (o caso da monarquia) ainda somos a favor da hereditariedade do dinheiro através de heranças, que os filhos herdem o dinheiro dos pais, etc. Então embora esteja sumindo o poder do sangue na política ele ainda existe na economia e é largamente aceito e defendido. 

Tendo isso em vista, não seria tão absurdo assim defender a monarquia. Se quiser conhecer mais os argumentos, há vários sites sobre a defesa da volta da monarquia parlamentarista. Se quiser, defenda a volta da família real ao poder no Brasil.

Em meio às lutas de esquerda e direita de Facebook, se você quer ser original defenda a monarquia! Não sei se temos grandes exemplos de governos anarquistas ou socialistas que tenham durado mais de um século ou alguns séculos, a não ser que estejamos falando num socialismo cristão feudal como o caso dos mosteiros, que existe até hoje (e na Índia também, com as religiões indianas). Mas temos vários exemplos de regimes monárquicos que perduraram por séculos. Há muitos países importantes que possuem reis até hoje. (Inglaterra, Japão, Tailândia, etc, aqui tem uma lista com 44 países).

Um dos argumentos é que ele geraria mais estabilidade. Você perderia menos tempo com lutas pelo poder e menos dinheiro em divulgação de campanhas políticas.

Infelizmente, até hoje eu li pouquíssimos textos em defesa da monarquia e minha maior base para sistemas políticos baseados no feudalismo, como o distributismo, é o Chesterton.

Tenho vontade de ler mais textos em defesa da monarquia não porque eu pretendo defendê-la seriamente, mas simplesmente porque é divertidíssimo defendê-la seriamente. 

Hoje em dia eu defendo o cristianismo seriamente, mas como a história mostra até mesmo uma religião que foca na importância de ajudar os pobres, de se desapegar do dinheiro e do poder gerou um pessoal que fez exatamente o contrário disso.  

O problema é que as pessoas só costumam citar Cruzadas e Inquisição quando falam mal da Igreja e se esquecem que enquanto havia uma galera queimando outros na Idade Média (muitas vezes por motivos políticos) também houve São Francisco de Assis, São Bento, São João da Cruz e muitos santos e santas que estavam muito longe do envolvimento e brigas por dinheiro e poder. Naquela época não era incomum reis e princesas doarem todo seu dinheiro para a caridade e irem morar em mosteiros. 

O problema é que quando os valores burgueses se tornaram a norma, não era mais socialmente recomendável doar todo seu dinheiro para os pobres e se retirar do mundo. Com os protestantes, houve um esforço para conciliar a doutrina cristã com o acúmulo de dinheiro.

Como eu já disse em outros lugares, o próprio Marx reconhece que houve valores feudais importantes que foram perdidos com o advento da burguesia. Os laços de sangue e da família, por exemplo, eram muito fortes num sistema com classes sociais mais definidas. Os laços de dinheiro passaram a ser a norma para associações e amizades.

Quando falo "laços de sangue" nem sempre quero dizer literalmente filhos de sangue, já que era comum adotar filhos que não tinham seu sangue mas que eram legitimamente seus herdeiros.

Eu já li alguns livros do Marx e reconheço que ele é inteligente e teve muitas ideias boas. O próprio Marx leu muito e viveu da forma que acreditava. No entanto, por mais simples que fosse sua vida, ele ainda era um pobre intelectual da cidade grande e não um de seus proletários iletrados que trabalhavam no campo, nas fábricas ou nas minas de carvão. Marx teve pouco contato com essas pessoas para tentar entender seus anseios.

Enquanto isso, os cristãos dos antigos mosteiros realmente plantavam o que comiam e tinham contato direto com os camponeses nas missas, pois muitos mosteiros ficavam em lugares afastados e remotos. A religião cristã foi moldada para atender essa população simples e pobre e entender o que eles genuinamente precisavam. Simultaneamente, houve o desenvolvimento do cristianismo filosófico com a escolástica, o que o tornou atrativo para classes mais altas e abastadas.

Outro dia falo sobre os jesuítas também, junto com Inquisição. Adoro os jesuítas.

Mas voltando à Revolução Francesa, sabemos que foi através dela que legamos os termos "esquerda" e "direita" política. Eu honestamente acho que essa briga já virou uma palhaçada há muito tempo. 

Para mim, tanto esquerda quanto direita possuem ideias interessantes e um poderia aprender com o outro se ao menos houvesse o mínimo de diálogo em vez dessa briga ridícula de gato e rato. Tem esse vídeo do cara do Monty Python que fala disso.

No sistema de saúde do Brasil, por exemplo, o fato de existirem tanto leitos do sistema de saúde público quanto do privado num mesmo hospital faz com que haja trocas entre os dois em todos os sentidos. Às vezes há tecnologias caras que o sistema público ainda não pode adquirir e há alternativas de obter uma parte dele pelo sistema privado.

Não acho que uma ideia social, política e econômica possua, sozinha, a solução para todos os problemas. Cada um descobre parte da solução e usando o que há de bom em cada uma é possível melhorar.

Outra coisa: as ideias do Marx podiam funcionar parcialmente para seu país, cultura e época, mas cada lugar é diferente e exige soluções ligeiramente diferentes. Uma pequena comunidade rural tem necessidades diferentes de um bairro da cidade.

Acho que não vale a pena falar nesse post sobre nazismo, fascismo e como eles seguiram o modelo de Esparta, senão vamos ficar até amanhã. Sim, certamente Esparta tinha suas qualidades. Platão também. Mas é preciso estudar "A República" de Platão e Esparta prestando atenção às circunstâncias e à época.

E isso não vale para o cristianismo também? Ele não era válido somente para a Idade Média? Bem, o ponto que levanto aqui é exatamente que o cristianismo sobrevive até hoje, firme e forte, como a maior religião do mundo. Só poderá ser ultrapassado em breve pelo islamismo, religião com origens semelhantes.

Tanto cristianismo quanto monarquia sobrevivem em nosso mundo em dezenas de países. Ainda há resquícios do sistema feudal em alguns lugares, mas creio que a crise do cristianismo e da monarquia possa se dever porque eles se encaixavam melhor num mundo feudal, mais ligado à vida no campo, em que o homem era mais ligado à terra, à natureza, comia o que plantava e assim tinha mais compreensão dos ciclos da vida, nascimento e morte.

Hoje as pessoas não entendem mais o cristianismo possivelmente porque estão desconectadas dessa vida no campo, habitam em cidades, vivem num mundo de consumo.

Claro que existiam muitas lutas por dinheiro e poder na Idade Média. Não sei se você percebeu, mas nesse post eu idealizei o cristianismo e o feudalismo propositalmente, não porque defendo que são alternativas melhores, mas porque defendo que não são necessariamente alternativas piores às que temos hoje.

Nós já conhecemos muitas críticas e desvantagens do cristianismo, monarquia e feudalismo. Citá-las seria apenas falar o óbvio. Minha novidade nesse post é dizer, sim, é óbvio que esses três possuem desvantagens que seu professor de história do ensino médio já cansou de repetir como um disco quebrado. O que ele não te contou foi o outro lado da moeda.

Por que o cristianismo sobrevive há dois mil anos? Por que ainda há resquícios do feudalismo no mundo moderno e tantos países ainda adotam a monarquia e vem adotando há milênios?

Para algo durar tanto e não cair tão rapidamente como ocorreu com nazismo e socialismo, por exemplo, não significa que seja porque havia algo de bom nisso, pois não concordo que a escravidão fosse um bom sistema e durou muito mais do que deveria. Porém, é uma indicação que pode nos fazer abrir os olhos.

Lembro que em "O Jogo das Contas de Vidro" de Hermann Hesse há algo sobre isso. Quando José Servo vai visitar um mosteiro beneditino, o abade do mosteiro diz a ele que o fenômeno que mais o fascina é a sobreviência de ordens católicas como a dos beneditinos, dos franciscanos e dominicanos por tantos séculos.

Sempre quando surge o assunto política eu digo que não sei muito sobre isso. Eu raramente pego para ler livros exclusivamente sobre isso e o que mais aprendi a respeito deve ter sido lendo livros de filosofia, história e outros assuntos que sempre tinham porções de política aqui e ali, que foram me influenciando sem eu perceber.

Então espero que esse meu post meio piada e meio sério tenha algum valor além de você ficar p da vida comigo, porque é o que geralmente acontece quando se ouve falar de política. Acho que esse é um assunto muito pessoal, pois tem a ver com o que será feito com o dinheiro do seu trabalho e gostamos de nos sentir os salvadores do mundo e da humanidade.

Acabei não confrontando muito as diferenças entre capitalismo e socialismo, mas minha opinião tende a ser parecida com a da Igreja, já que sofri uma lavagem cerebral autoinduzida depois de ler tantos livros de cristianismo. No Compêndio do Catecismo da Igreja Católica há a seguinte passagem: 

"Opõem-se à doutrina social da Igreja os sistemas econômicos e sociais que sacrificam os direitos fundamentais das pessoas ou que fazem do lucro a sua regra exclusiva ou o seu fim último. Por isso, a Igreja rejeita as ideologias associadas, nos tempos modernos, ao comunismo, ou às formas ateias e totalitárias de socialismo;. Rejeita, além disso, na prática do capitalismo;, o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado e do trabalho humano"

Ou seja, a Igreja diz: capitalismo, busca exclusiva de lucro, individualismo, etc, é uma droga, mas ainda é melhor capitalismo do que socialismo. Isso porque o socialismo, da forma que mais conhecemos, sacrifica o direito da liberdade, que é sagrada para o cristianismo, conforme mostra a queda de Adão: é melhor sofrer por uma escolha ruim do que ser proibido de fazer uma escolha. Claro que ao longo da Idade Média o cristianismo tirou a liberdade de muita gente e até hoje continua repleto de contradições.

Ainda assim, vejo muitos cristãos contribuindo para um mundo melhor e conforme me consta as instituições religiosas ainda são as que fazem mais trabalhos de caridade no mundo.

O socialismo de Marx nos sugere a em vez de fazer "caridade" mudar a estrutura social como um todo. Porém, eu ainda acredito na reforma lenta, de se dedicar à família, educação dos filhos, ao trabalho e a pequenos trabalhos de caridade mesmo modestos (ou até ajudar vizinhos, amigos, etc) tudo isso contribui. Isso pode ser feito conjuntamente com reformas mais profundas, desde que não sejam violentas.

Sabe de uma coisa? As pessoas quebram a cabeça tentando bolar bons sistemas políticos há milênios e certamente não serei eu a dar uma resposta revolucionária nesse sentido. Só sei que pode ser equivocado dizer que "achamos finalmente a solução mágica que ninguém tinha pensado até hoje". É mais fácil encontrar respostas no passado do que num futuro que ainda não aconteceu, pois uma ideia sempre é uma utopia mais bela do que quando é colocada na realidade. 

Isso porque não somos seres perfeitos e cada ser humano busca coisas diferentes. Então temos que aprender a conviver com a diversidade e em vez de considerar ruim a variação de ideias, tentar pegar inspiração dos lugares mais improváveis e muitas vezes esquecidos e deixados para trás, considerados como ultrapassados e superados. E isso inclui cristianismo, feudalismo e monarquia.



Comentários


  1. PUTZZZ!!!!!!QUE POST POLÊMICO!!!!!

    Você ressuscitou Tolstoi e seu apego ao campo e ao mujiques russos !!

    Seu texto é longo e com muitas citações e fica evidente que as inúmeras contradições (afirmar algo e mais na frente se contradizer, como por exemplo: "o socialismo ... sacrifica liberdade, que é sagrada para o cristianismo. Claro que ao longo da Idade Média o cristianismo tirou a liberdade de muita gente e até hoje continua repleto de contradições.") é resultado de uma reflexão solta, coloquial, digamos assim, determinada pela característica que o formato blog pede.

    Mas, há "forçada de barra" quanto a Marx. Você usa a sobrevivência milenar do cristianismo (em outros posts também) como se fosse um critério poderoso que atestasse o valor de um sistema de ideia e aceitação (quase "universal"). Por que então, não aplicar no marxismo o mesmo critério? Porque, até bem recentemente, quase metade da humanidade estava sobre influência das ideias de Marx (e Lênin, seu "fiel" interprete). E ainda hoje, toda vez que o sistema entra em crise, Marx é ressuscitado (pesquise a grande crise de 2008, chamada de subprime, e veja a procura alucinada à época sobre seus livros).

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    1. Hahaha, tem várias coisas que o Tolstói diz que não concordo, como algumas das críticas dele a aspectos do cristianismo ortodoxo, mas eu simpatizo com várias coisas também. Há esse idealismo da vida no campo tanto pela parte de Tolstói quanto de Rousseau. Evidentemente, esse tipo de vida apresenta inúmeras dificuldades.

      No caso do marxismo não há como medir ainda seu grau de influência, pois ele é relativamente recente. Vamos ter que aguardar uns quinhentos ou mil anos para ver se nessa época Marx ainda será largamente citado e se ainda haverá países com governos socialistas/comunistas tal como ele e seus intérpretes propuseram.

      Eu imagino que daqui mil anos já terão inventado uma forma de governo que não é nenhuma dessas que conhecemos, mas uma mistura de propostas passadas (com um nome novo, para ser mais bem aceito).

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  2. Vamos um pouquinho mais adiante. A propósito de sua simpatia pelo cristianismo, vou citar uma parte de uma poesia de um santo místico cristão que aprecio:

    “Ver um mundo em um grão de areia
    e um céu numa flor selvagem
    é ter o infinito na palma da mão
    e a eternidade em uma hora.”
    ( William Blake)

    Sendo um pouco mais chato, há diferença quanto ao sentido da frase de cima para essa de baixo?

    "Assim como em cima, é embaixo. Assim como embaixo, é acima." (Hermes Trismegistus)
    Cito essas duas conhecidas frases para elaborar uma analogia com Marx e sua contribuição à humanidade. Vamos a analogia.
    Todos sabemos que a grande obra de Marx é o CAPITAL. Trabalho de fôlego. A leitura do livro é uma pedreira. Mas, vamos lá.
    Marx não inventou a luta de classes. Ela existiu e continua existindo desde os primórdios da civilização. Ela foi e é motivada, primeiramente pela necessidade de sobrevivência, pela fome e pela segurança. Depois, pela busca de acúmulo material de riquezas. As duas grandes guerras mundiais do século passado foram motivadas pela conquista de mercados, foram guerras de rapinagem. Basta consultar os planos e as estratégias dos governos antes da guerra (Japão e Alemanha principalmente).
    Quando Marx, no CAPITAL, começa apresentando o objeto de análise chamado MERCADORIA, vemos a força de seu intelecto demonstrando o fator concreto (a mercadoria em si) e o aspecto abstrato (o conjunto de relações que determina a organização política e cultural da sociedade submetida aos meios de produção, em todas as épocas). Fica evidente, aqui, a analogia entre o grão de areia e o universo e entre a mercadoria e a organização social conhecida como sistema capitalista.
    Quando se fala em sistema capitalista temos que ter em mente que falamos de uma organização mundial REAL regula as relações entre os humanos e que estrutura o conjunto de todos os países minimamente civilizados do planeta. É em torno desse sistema que governos caem e se erguem. Que as guerras são feitas e desfeitas.
    Há uma contribuição de Marx que é simplesmente original e espetacular a respeito de uma contradição essencial desse sistema.
    Quando ele se refere a MAIS-VALIA-RELATIVA (mais precisamente no livro dois) e a tendência decrescente de lucro.
    A mais valia relativa diz respeito ao desenvolvimento acelerado da tecnologia. Essa tecnologia avançada eleva em proporções gigantescas e mundialmente a produção de mercadorias, penetrando em vários mercados, de inúmeros países, destruindo economias locais e derrotando concorrentes mais atrasados. Mas, quanto mais produtos no mercado, vale a regra, menos valor. Produtos de alta tecnologia se tornam obsoletos em pouco tempo. E como o motor do sistema é o lucro, se as vendas caem, o lucro diminui. Para suprir essa diminuição o remédio criado foi o sistema financeiro, os juros via o crédito. Até virar uma grande bolha especulativa e ...tan-tan-tan-tan ... RUIR! Como em 2008! Como em 1930!
    Para socorrer o sistema, entra em cena o instrumento mais execrado pelo liberais burgueses. Advinha:
    O PAPAI ESTADO!!!!!!!
    Para os burgueses, a regra funciona assim: quando estou tendo lucro, o Estado atrapalha. Quando estou tendo prejuízo, o Estado é necessário !!
    Para não alongar (peço mil desculpas, pela chateação). Você acredita seriamente que a quantidade de refugiados no planeta é obra do acaso? São mais de 60 MILHOES de refugiados no planeta!!!!!
    E AGORA, PASME, ELES SÃO A POSSIBILIDADE QUE O SISTEMA CRIOU PARA DETER A TAXA DESCRECENTE DE LUCRO DO SISTEMA (chamada por TMarx de MAIS –VALIA-ABSOLUTA). É por isso que Donald Trump, presidente dos EUA, é bastante criticado, exatamente porque vai contra a regra de ouro do sistema que sobrevive da exploração da força de trabalho. No Brasil, as reformas trabalhistas tão alardeadas estão em sintonia com a necessidade de conter a crise do sistema como uma todo.

    Bom, como você se apresenta como advogada de Deus, eu resolvi me apresentar como o advogado do Diabo ( há sempre um lugar quentinho no inferno, apesar dos pesares, heheehe!!!)






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    1. Adoro essa poesia do William Blake! Lembro que tive contato com ela pela primeira vez na adolescência, por causa de um vírus de computador que usava esse poema, haha.

      Muito obrigada pelas explicações, adorei mesmo! Embora eu já tenha lido algo de Marx, nunca fui a fundo no estudo das propostas dele. Então esses esclarecimentos me ajudaram.

      Do pouco que li dele, entendi que com certeza suas ideias foram bem originais.

      Os problemas que vejo é mais no sentido de haver necessidade de uma luta armada para estabelecer esse sistema. No caso dos mosteiros, ou em cidades apenas de mosteiros como existia antigamente (ainda existem resquícios disso, como o Monte Atos), as pessoas vão até lá livremente para viver como iguais largando suas posses. Há várias pequenas comunidades, geralmente religiosas, nas quais é possível viver em famílias de forma simples, dividindo algumas coisas, sem busca de lucro, etc, como em ashrams na Índia e em outros países.

      Obviamente, é muito mais difícil administrar um país enorme como o Brasil do que um pequeno mosteiro! Por isso, acho que para cada lugar e situação não existe uma solução universal sobre o que fazer.

      Há vantagens e desvantagens no feudalismo, capitalismo e socialismo. Não sei como seria feita uma tentativa de criar algo para maximizar a vantagem de cada sistema.

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  3. Fiquei orgulhoso ( um dos pecados para o cristianismo,rsss) pela sua compreensão da minha explanação sobre Marx.É, de fato, uma honra vindo de uma Mestra como você!

    E , por sincronicidade, acabei de receber um comunicado do Clube dos autores informando que seus livros que eu havia encomendados chegaram ( Agracamalas e Grimório da Insolência).

    OBS: Gostaria somente de esclarecer um ponto a respeito da citação sobre Donald Trump.

    Ele é um atraso e uma excrescência , mesmo sendo um burgues , para o próprio sistema que o gerou.
    Ele teve os votos e a aceitação de grande parte da classe operaria ( pobre Marx!!!) branca norte-americana por causa de sua discurso contra os imigrantes.Ora, é obvio que o sistema capitalista ( principalmente o mais poderoso) precisa desses imigrantes por causa do valor de sua mão de obra ,muito,mas muito, muito inferior à classe operária branca nativa.Essa é a contradição que ele carrega.

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    1. Foi ótima mesmo a explicação! Ah, nem sou uma Mestra, sou uma pessoa que gosta de se fingir de entendida em um monte de áreas do conhecimento só porque li meia dúzia de livros sobre o assunto ehehe

      Brigada por comprar meus livros!!! Espero que goste! *_*

      Sou uma alienada sobre o que está acontecendo atualmente na política, só sei todas as fofocas sobre a política medieval kdjfdfhd. Não sei muito sobre o Donald Trump, mas eu certamente não gosto de discursos contra imigrantes.

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