Por que eu não sou muçulmana?




Aposto que você se pergunta todos os dias: "por que será que a Wanju não é muçulmana? É uma religião ainda mais polêmica do que cristianismo, aposto que ela ia adorar!" Pois é, amigo, eu pensei exatamente a mesma coisa. Tuuudo a ver!

Eu tive minha época de namorar o islamismo e quase encomendei um tapete árabe cor-de-rosa para as minhas cinco rezas diárias. Nos breves meses em que essa paixão aconteceu cheguei a ler alguns livros de islamismo, mas poucos. Acho que não passaram de vinte. Tenho eles aqui na minha estante, incluindo Averróis e Avicena. Nossa, agora lembrei que cheguei até a fazer um blog de islamismo! E sim, é óbvio que eu já li o Corão! Li pela primeira vez no final da adolescência e adorei.

Eu estava ansiosa para o mês de Ramadan desse ano. Pretendia jejuar o mês inteiro, como os muçulmanos. Só que houve mudança de planos e não me converti ao islamismo por várias razões. Vou explicar. 

Lá estava eu, uma boa católica feliz indo na missa não só todo domingo mas quase todo dia sempre que eu conseguia e levando meu namorado na missa em algumas ocasiões. E emprestando mil livros de cristianismo pro Luiggi ler. Sim, meu namorado é um santo. Tem que ser um santo pra namorar comigo.

Até que um belo dia eu disse (claro que eu não lembro exatamente da conversa, mas vou adaptar):

JU: Lu, vou me tornar muçulmana!

LU: Ah, não. Logo agora que eu tava começando a digerir a ideia do cristianismo. Tava quase me acostumando.

JU: Só que tem alguns problemas. Não dá pra namorar no islamismo. Será que a gente vai ter que se casar logo?

LU: Por mim...

JU: Mas tem outro problema. No islamismo, uma mulher muçulmana só pode casar com um homem muçulmano. Então pra eu me tornar muçulmana tu vai ter que se tornar muçulmano também.

*silêncio*

JU: Tu faria isso por mim?

LU: Olha, só se tu realmente quiser muito ser muçulmana. Eu não gosto de me converter pra uma religião que eu não acredito.

JU: Tem outra coisa. Se eu me tornar muçulmana eu vou querer fazer o Hajj. 

LU: O Hajj?

JU: Eu vou querer visitar Meca pra realizar minha peregrinação sagrada na Caaba! Vou ver se já consigo ir pra Arábia Saudita o ano que vem, porque eu quero realizar meu Hajj o quanto antes porque sou muito devota. Mas tem outro problema. Tu vai ter que me acompanhar.

LU: Quê?

JU: Uma mulher só pode entrar na Arábia Saudita acompanhada pelo pai ou pelo marido e fazer o Hajj acompanhada. O pai tem que ser muçulmano e acho que meu pai não vai querer se converter. É mais fácil tu te tornar muçulmano, a gente se casar e tu fazer o Hajj comigo. Tem que fazer vários dias de jejum, raspar a cabeça, fazer uma caminhada bem longa de...

LU: Ju.

JU: Oi?

LU: Nunca pensei que eu ia dizer isso, mas continua sendo católica então. Só vou precisar me crismar pra gente casar e pronto. Nem católico vou precisar ser. É mais fácil.

JU: Mas se a gente for muçulmano não vamos precisar ficar a vida toda sem fazer sexo. Os muçulmanos deixam usar contraceptivos.

LU: Sinceramente? Prefiro ficar a vida toda sem fazer sexo do que me converter a uma religião que eu não acredito, entrar num país muçulmano e fazer uma peregrinação sem acreditar em nada disso. Eles levam muito a sério. E a conversão seria muito estranha para a minha família.

JU: E tu vai ter que rezar cinco vezes por dia e fazer jejum no mês de Ramadan. Quer que eu compre um tapete verde pra ti já que tu gosta de verde? O meu vai ser rosa.

LU: Ju, por favor, repensa isso. Eu te amo e faria muitas coisas por ti, mas isso é meio... hmm.. 

JU: Meeeeh! Tá bom!

Acho que essa conversa ocorreu no fim do ano passado. Passei alguns meses com essa dúvida. Digamos que meu amor ao meu namorado foi a razão mais importante porque eu não me tornei muçulmana, mas também houve outras razões.

Usar o véu fica meio difícil pensando no sentido do trabalho. Pensando bem, acho que em quase todos os trabalhos fica complicado. Rolaria bastante preconceito. Por outro lado, seria maravilhoso nunca mais precisar se preocupar com o cabelo em público. As muçulmanas costumam dizer que é uma das maiores vantagens de usar véu: perder menos tempo arrumando o cabelo (passei um tempinho lendo blogs escritos por mulheres muçulmanas).

Eu também nunca mais ia poder usar roupas de verão mesmo no calorão, mas isso era o de menos.

Eu estava tããão ansiosa pra rezar cinco vezes por dia e fazer o jejum do Ramadan! Tive que me contentar com rezas diárias do rosário cristão e jejum da Quaresma.

Não cheguei a me converter, até porque essa é uma decisão séria no islamismo. Se você se converte e depois abandona a fé, é ainda mais grave do que nunca ter se tornado muçulmano na visão deles.

Ah, mas tem outra razão importante para eu ainda preferir cristianismo ao islamismo!

O cristianismo é mais ligado ao mundo espiritual e o islamismo é muito "terreno". Até a visão deles de céu tem características de coisas da terra. Os muçulmanos são fortemente envolvidos na política, enquanto para os cristãos "o Reino de Deus não é desse mundo".

Eu me identifico muito mais com a abordagem cristã, já que nós já vivemos num mundo materialista e secularista apegados às coisas da terra. Acho super legal o islamismo ser tão politizado e tal. Eu adoro aquele rapper árabe, o El General. Sério, essa música é muito foda. É super famosa. Amo as músicas dele, respeito muito.

Mas parece que é o cristianismo que acho mais massa. Também respeito o judaísmo, mas por alguma razão nunca senti nenhuma identificação particular com ele. Acabei aprendendo bastante sobre judaísmo por tabela só nos meus estudos de cristianismo (Velho Testamento, etc) mas ainda tem várias coisas que não sei.  




Outra razão de eu gostar de islamismo é que eu admiro muito a cultura africana. Como podem ver, o islamismo é muito forte na África. E essa prevalência islâmica na África é consideravelmente antiga.
 
Eu estava até feliz porque sendo muçulmana eu ia poder ir para o mar com essa versão do hijab. Um biquini islâmico, o burkini!




Poxa, agora só vou poder ir de biquini comum. Coisa mais clichê!

Acho que eu me esforço tanto nas minhas piadas que estou pronta a sacrificar minha vida por isso. Nem eu me entendo direito pra ser sincera. Acho que eu definitivamente não levo a vida a sério (ou será que levo a sério demais?) e estou pronta a sacrificar tudo por qualquer coisa na primeira oportunidade. Quero ser uma heroína maluca que nem nas histórias que escrevo.

Eu provavelmente só não me enfiei numa caverna no Tibete (ou qualquer coisa parecida com isso) porque eu sentiria muita falta das pessoas na minha vida. Só percebo o quanto sinto falta quando fico longe. 

Mas não se preocupem, porque eu só pensei seriamente nisso na minha adolescência, hehe. Agora eu sou uma pessoa madura que pensa em coisas mais realistas e light como um tapetinho. Para a alegria do Luiggi, esse ano voltei para a magia do caos. Vamos ver até quando.

PS: se vocês acharem uma religião desconhecida e maluca na internet me mandem o link. Serei muito devota e darei minha vida por ela. Não, brincadeira. Vocês sabem que não faço essas coisas.


Comentários

  1. Nossa eu pareço tããão virtuoso nessa conversa asdhjhsdfh

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  2. Por um momento fiquei com a impressão que a essência de toda a religião ( nesse caso, as duas monoteístas, islâmica e cristã) seria a devoção absoluta ,por amor a uma mulher.
    Sendo a Wanju uma "Caoista",que cria e transita e vários mundos e dimensões ,eu me converteria ao islamismo com toda sua castração ritualística.Depois, um novo portal se abriria e, quem sabe em outras navegaríamos em outras praias ,hehehehe.

    Voltando a tese da "essência" da religião ser uma devoção ao amor pela mulher, temos que lembrar que entre o Paraíso e o "encanto" de Eva ,Adão optou por ela.
    Não perdeu o Jardim do Éden.Ganhou a terra.E sempre que ele resolve retornar ao Paraíso,bem, ele sabe, procura Eva.


    Ninguém tira do amor,
    ninguém tira, pois é
    Nem doutor nem pajé,
    o que queima e seduz, enlouquece
    O veneno da mulher
    (João Bosco)


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    1. Realmente! A essência de toda religião é devoção absoluta por amor! E isso envolve algum tipo de renúncia. Também adorei tua reflexão sobre o Jardim do Éden.

      "E sempre que ele resolve retornar ao Paraíso,bem, ele sabe, procura Eva".

      Amei, amei! :D

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  3. A pedidos:

    http://euemeualterego.blogspot.com.br/2010/09/as-10-religioes-mais-estranhas-do-mundo.html

    Tem várias que é a sua cara rsrs, mas a tal da Ondas Pana resolve o problema do cabelo kkkkkkk

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    1. Eeeeeee! Brigada! Verdade, gostei dessa Ondas Pana, bem estilosa também.

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  4. Aproveitando o post sobre o islã, vou aproveitar e te recomendar um livro sufi, A Linguagem dos Pássaros de Farid Udin Attar, um dos grandes clássicos da literatura sufi, juntamente ao Masnawi do Rumi, o qual ainda pretendo ler.

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    1. Valeu pelas recomendações! O do Rumi já ouvi falar. O sufismo é bem interessante mesmo.

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