A questão da liberdade




Dizem que as duas coisas mais importantes para o ser humano é a felicidade e a liberdade. No entanto, dentre as duas, a liberdade valeria mais. 

É por isso que na história do Jardim do Éden Deus opta por conceder a liberdade ao ser humano em vez da felicidade. Era possível a Deus fazer os humanos completamente felizes com uma condição: que não tivessem liberdade. Se não houvesse uma árvore com um fruto proibido, seria impossível pecar. Isso significaria que Adão e Eva não teriam nenhuma outra escolha a não ser não pecar. Ou seja, eles não fariam a coisa certa por serem bons, mas simplesmente porque era a única opção possível.

Por isso, Deus presenteou o ser humano com o livre-arbítrio: ele poderia escolher entre o bem e o mal. Adão e Eva comeram do fruto e caíram, mas esse não era o fim. Deus, que era bom, deu a eles a oportunidade de se redimirem. E é essa a história da Bíblia: a história de como os seres humanos cometem incontáveis erros por causa da liberdade. Deus perdoa muitas vezes (setenta vezes sete). Sim, a liberdade nos leva a cometer erros, mas também acertos. E o bem que fazemos com a liberdade é superior ao bem que fazemos sem liberdade (afinal, o "bem" sem liberdade não chega a ser um bem moral, mas somente a única escolha).

Os mandamentos são códigos morais, são guias, que uma pessoa pode escolher seguir ou não. E existe o que se chama de "lei natural" no coração de cada um, que nos mostra a diferença entre o bem e o mal. Mas também cometemos erros por aquilo que o cristianismo chama de "ignorância invencível" e um pecado sem pleno conhecimento não é pecado.

Hoje em dia as pessoas querem achar mil erros na história da Bíblia e no cristianismo, apenas apontando suas falhas em vez de tentar extrair as coisas boas.

Eu acho curioso que quando se trata das chamadas "religiões do oriente" as pessoas tendem a defender até a morte só porque são orientais. Aí passam a achar que tudo que é religião ocidental é ruim e atrasada, cabeça fechada, e tudo que é oriental é bom. Quando ouvem falar do sistema de castas indiano, isso é prontamente ignorado e só se fala das partes bonitas do hinduísmo, como se o cristianismo também não tivesse suas partes belas e fosse apenas Inquisição, Guerras Santas, etc.

Enfim, essa foi apenas uma observação que eu nunca consigo evitar fazer. E nem quero evitar.

Eu sou da opinião de que nós defendemos nossas ideias por motivos emocionais e não porque achamos algo realmente lógico. Afinal, a lógica de qualquer coisa pode ser dobrada para atender as necessidades do coração. Essa já é uma ideia que defendo há muito tempo e percebi em mim.

Quem é ateísta não acredita em Deus não porque é mais "lógico" não acreditar, mas porque não gosta da ideia de um Deus acima dele mesmo (esse é o motivo que Nietzsche dá para não acreditar em Deus), porque se sente mais livre não tendo um Deus lhe dizendo o que é bem e mal, certo e errado, etc.

E quem acredita em Deus é pelo mesmo motivo: emoção. Eu mesma prefiro um mundo em que exista um Deus que me ama e me protege. Eu gosto mais do Deus pessoal das religiões abraâmicas, que se importa comigo, do que de um Deus panteísta que parece meio indiferente. Eu gosto da ideia de um Deus acima de mim porque me ensina humildade. Eu sinto que a existência de um Deus em vez de me aprisionar me liberta. Dá significado ao mundo e a mim mesma. Ele tira muito do meu medo da vida e da morte.

Eu gosto de um mundo com Deus porque pra mim a existência de Deus dá significado à morte e à dor. Falo um pouco disso no meu novo livro. Tem gente que acha que porque existe dor e morte um Deus bom não existe, porque não permitiria isso. Mas eu penso exatamente o contrário: é a noite escura da alma que dá sentido para a vida. E a morte tem sentido porque existe outro mundo além desse.
É claro que para quem acredita que o mundo é apenas material a existência de Deus faz pouquíssimo sentido. Engraçado que caos tem mais a ver com um mundo ateísta do que com um mundo monoteísta. Mas eu me acostumei com uma visão de mundo em que caos e ordem se alternam numa dança. Acho que Deus gosta disso, de fazer esse mistério.

Pode ser que você acredite em vários Deuses. Sim, isso pode servir também e é bonito. Tem o argumento da Navalha de Occam que nos indica que se um Deus só faz o serviço, por que precisamos de tantos? E só poderia existir um Deus onipotente, onisciente e onibenevolente, certo? Mas as pessoas não se importam com lógica quando querem defender uma ideia. Vão dobrar a lógica e arrebentá-la. Eu também faço isso.

Mas agora eu também queria falar da questão da liberdade da perspectiva política. É muito difícil dar ao mesmo tempo felicidade e liberdade às pessoas. Afinal, se você dá muita liberdade, pode ser que as pessoas busquem coisas que façam mal para elas. Mas se você proíbe demais tendo em vista a felicidade, também pode acabar apagando a felicidade (numa tentativa de preservá-la!).

Não sei se até hoje já existiu um sistema político capaz de proporcionar felicidade e liberdade num bom equilíbrio. Há quem diga que o capitalismo dá liberdade até o ponto em que se tenha dinheiro, então esta seria uma liberdade de fato?

Existe esse desejo de que todo ser humano tenha acesso pelo menos ao básico (educação, saúde, saneamento, etc). E eu diria que desde o início do cristianismo primitivo isso já é possível, desde que a pessoa opte por morar num mosteiro ou num ashram.

Falando sério: se você quer viver numa comunidade em que as famílias dividem tudo, isso existe em várias partes do mundo. E também é possível viver em mosteiros de várias religiões mesmo sem ser monge em praticamente todos os países. Nesses lugares você terá acesso a água, comida, terá um teto, livros, atendimento médico básico, etc.

Eu vou repetir: em praticamente TODOS os países você tem a liberdade de viver numa dessas comunidades ou se deslocar para uma delas. Os mosteiros cristãos, por exemplo, costumam aceitar pessoas de qualquer nacionalidade. 

Mesmo assim, existem muitas pessoas vivendo sem nem mesmo o mínimo para sobreviver. É verdade que muitas delas não sabem ler e escrever e nem sabem da existência dessas comunidades. Ou moram em regiões tão remotas que precisariam viajar por dias em condições difíceis para chegar a uma delas.

Mas existe mais nessa história: muita gente não quer perder a LIBERDADE e prefere sacrificar a oportunidade de ter teto e comida. Até porque há gente que não deseja sair da cidade em que nasceu, quer ajudar uma família de membros numerosos, os vizinhos, etc. Há incontáveis razões para as pessoas fazerem o que fazem.

A proposta de um governo socialista, tal como eu entendo, é que toda a população terá acesso ao menos ao mínimo (saúde, educação, comida, casa, etc). Em compensação, haverá algumas restrições na questão da liberdade.

E o meu ponto é esse: muita gente não está disposta a ter comida e casa se for para sacrificar aquilo que elas mais prezam: a liberdade de ir e vir, mesmo que essa liberdade possua restrições considerando a questão financeira.

Confesso que eu mesma simpatizava muito com a ideia de um governo socialista quando era adolescente. E até hoje eu reconheço que ideias socialistas possuem seus méritos, há muito a aprender. A existência de bibliotecas comunitárias, sistemas de saúde público, enfim, tudo isso tem suas enormes vantagens e eu defendo que continuem a existir. Mas eu também defendo que, junto com bibliotecas públicas e saúde pública eu também tenha a liberdade de comprar um livro que eu quero muito ler e não tem na biblioteca, ou pagar uma clínica privada se a vacina que eu quero não está disponível no postinho (essas duas situações acontecem com frequência).

O argumento é que se todos os livros fossem apenas públicos ou todo o sistema de saúde fosse apenas público não haveria essa falta de livros ou vacinas, todos teriam tudo quando querem! Mas será que essa não é uma utopia? Eu acredito que teríamos que sacrificar nossa vez de ler o livro ou ter a vacina de acordo com a prioridade. Talvez eu ou meu filho morressem porque há uma pessoa com prioridade na frente, e digamos que seria justo. Injustiças não acontecem com ainda mais frequência no sistema capitalista?

Eu acredito que o ser humano deve largar a ilusão de que um dia criará um mundo perfeito. Não adianta: com liberdade nunca haverá perfeição. Você pode até obrigar que um monte de gente seja médico, porque falta médicos. Ou obrigar o médico a ir morar numa cidade do interior em vez da capital porque falta médicos lá. Com isso mais vidas serão salvas, mas esse médico será feliz?

No sistema capitalista você o incentiva com dinheiro: receba cinco vezes mais se morar na Cidade Desconhecida Longínqua e quem acha que o benefício compensa vai pra lá (muitos mesmo assim negam a oferta; eis a realidade). Não tenho certeza como essa questão seria tratada num sistema socialista. Como o Che Guevara era formado em medicina, imagino que teve altas ideias para implementar em Cuba. Nunca li o bastante a respeito para saber como ele solucionou o caso. Eu devia anotar um livro do tipo para minha lista de leituras.

Até hoje tenho a impressão de que é a aliança do sistema público de saúde com o privado que dá bons resultados, mas não sei. Eu teria que ler mais sobre isso para chegar a uma conclusão. A utopia é de que num mundo completamente socialista teria de tudo para todos (ao menos num nível básico), mas é aí que está: será?

O meu ceticismo em relação ao socialismo começou quando fiz retiros em mosteiros. Lá eu vivi um tipo de pequena realidade socialista, e olha que foram mosteiros muito "burgueses", que recebiam enormes doações.

Eu tenho a impressão de que só podemos ter condições de entender plenamente o socialismo quando o vivemos. Claro que deve ser diferente viajar como turista para um país socialista e ter toda a liberdade de fazer o que quiser.

Não sei muito sobre a vida em países socialistas, mas ouço falar que não há plena liberdade para escolhermos o tipo e a quantidade de comida que teremos. Pode até ter pleno atendimento médico e ninguém passar fome, todos terem educação, etc. Mas há restrições pelo bem do grupo.

E eu vou dizer uma coisa: comida é uma das coisas que mais toca nas entranhas do ser humano. Pelo menos para mim, nas minhas duas experiências de mosteiro, o que mais me criou dificuldades foi a comida. Sim, era comida boa, com muitas opções. Mas frequentemente eu não tinha a liberdade de definir tipos e quantidades.

Parece frescura? Sim, parece frescura para quem está acostumado a comer o que quer e quando quer, mesmo que sejam coisas baratas.

Sim, no mosteiro eu tinha liberdade de faltar um "dia de trabalho" quando estava doente. Mas era esperado que eu me oferecesse a ajudar o grupo o tempo todo, mesmo em coisas que eu não queria realmente fazer. Num sistema capitalista claro que você não pode fazer o que quer quando precisa do dinheiro, mas ainda tem liberdade de escolher certos aspectos da sua vida até certo ponto.

O que eu senti em mosteiros foi o seguinte: era quase um Éden, de tão lindo. A maior parte das pessoas gentis, todos querendo ajudar a todos. Mas é lindo principalmente para quem olha de fora. Quem está lá dentro sabe que é uma vida dura. É claro que certos trabalhos braçais existentes no sistema capitalista e com salários baixos são ainda mais duros do que uma vida de mosteiro. 

Não me entenda mal: minhas breves experiências em mosteiros não me fizeram amar o capitalismo e odiar o socialismo. Seria uma visão ingênua, até porque no sistema capitalista há muitas pessoas passando fome e dificuldades (mas com liberdade relativa para mudar a situação até certo ponto, como já comentei acima, sobre as comunidades que acolhem essas pessoas).

O que eu vivi nos mosteiros me ensinou o que se segue: não pense que o sistema socialista ou ideias socialistas em geral são a salvação do mundo. Não pense que o capitalismo é o mal e só traz o mal. Esse é um tipo de maniqueísmo que desaprovo, assim como não concordo com a visão oposta de que os socialistas são os vilões e os capitalista os caras razoáveis da história.

Por isso quando vejo essas brigas entre direita e esquerda me desagrada um pouco, pois cada lado acha que possui a verdade. É como costumo dizer: até no feudalismo havia coisas boas. Até hoje as pessoas ficam falando mal do cristianismo, por exemplo, e apontando suas falhas.

Eu gosto de defender monarquia e feudalismo meio de brincadeira, mas é um tipo de brincadeira que nos sugere ampliar nossa visão da realidade: em vez de criticar algo que não conhecemos, tentemos conhecer e ver algumas coisas boas. Ou em vez de defender ardentemente algo que não conhecemos (como fantasiar sobre o sistema socialista sem ter vivido algo parecido), perguntar a nós mesmos se aquilo ali é mesmo a última bolacha do pacote. 

Possivelmente uma das coisas que mais me desagrada no socialismo seria a proibição das religiões. Mais cristãos foram mortos por governos socialistas no século XX do que em todos os séculos anteriores (nem os romanos jogando cristãos aos leões foram tão bons nisso). Tire Deus das pessoas e elas irão adorar o ditador/governante. O ser humano precisa de espiritualidade, ou ao menos uma boa parte deles. Se você tirar a pobreza das pessoas elas não precisarão mais de Deus? Será? Nós precisamos de mais do que comida.

E aquelas restrições de acesso a informação... até que ponto isso se justifica? Eu já tive alguns amigos chineses que odiavam essas restrições, incluindo a antiga restrição sobre o número de filhos. Felizmente a China percebeu que se continuasse com isso não haveria mais trabalhadores jovens para sustentar a população aposentada.

A questão da liberdade é complicadíssima. Essas foram apenas reflexões iniciais sobre o assunto. Com esse post eu tampouco defendo que eu tenho a verdade e que devemos buscar coisas boas em todos os pontos de vista. Não acho que se deva defender que existam coisas boas em ter preconceitos contra, digamos, mulheres, negro e homossexuais, mas tampouco acho que se deva criticar religiões usando esse argumento como se elas fossem apenas isso.



Comentários

  1. Os Sistemas que organizam e regulam a conduta da sociedade ( comunismo ,socialismo e capitalismo ou o finado feudalismo) são criações humanas e, que como tudo , trazem em si o germe da sua própria destruição.E liberdade é um sentimento que ocorre quando na sua mais absoluta falta ( em qualquer sistema).E o livre arbítrio nada mais é do que a ilusão da escolha. E assim , evoluímos....

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