Brasil, religião, pátria, família e juventude




Antigamente havia pessoas que morriam por sua religião ou por sua pátria. Na verdade ainda há. Mas os jovens de hoje estão cada vez menos religiosos e menos patriotas. Talvez isso ocorra, em parte, porque estamos mais individualistas no século XXI, mas isso não é tudo.

Os jovens de hoje ainda são apaixonados (como os jovens de todas as épocas), sonhadores e desejam viver por um ideal. Eles querem salvar o mundo. Mas eles não ligam para coisas como país, religião ou família. Eles querem que o mundo seja um só, sem divisões, que seu país seja o mundo inteiro, que sua religião seja todas ou nenhuma delas, que sua família seja seus amigos ou os pobres passando fome vivendo do outro lado do mundo.

Bonito, não é? Belíssimo, eu diria. Admiro esse pensamento. Mas também vejo com desconfiança essa negação de valores tradicionais.

Nós tendemos a ver a tradição da religião e da família como "coisa de velho conservador", como algo obsoleto. Mas é conforme vivemos mais e quando ficamos mais velhos que vamos ganhando experiência de vida e percebendo o valor da tradição. É claro que não é só idade que nos traz sabedoria, mas contribui.

Os jovens em geral se acham muito mais espertos que os adultos. Acham que a experiência dos adultos vale pouca coisa e querem fazer as coisas do seu jeito. Muito bem, nós queremos liberdade e devemos ter direito a ela (falei no post anterior sobre a questão da liberdade).

Quando ficamos mais velhos (nem precisa ser tão mais velhos assim), percebemos que nossos pais estavam certos em algumas coisas, mas não em tudo. Afinal, a geração deles foi outra. Nós às vezes entendemos melhor a nossa geração do que eles.

Novamente, não é nenhum maniqueísmo: os pais não são monstros conservadores, mas eles tampouco estão certos em tudo. Só que, como eles possuem mais experiência de vida, há muita chance de eles estarem corretos em relação a várias coisas que nós ainda não vivemos.

Eu tenho a teoria (meio óbvia) de que só passamos a entender muito mais o valor da tradição da família quando temos filhos. Pode até ser um filho adotado, não importa. O que nos interessa aqui não é o sangue, mas a possibilidade de criar e educar outro ser humano.

Só então nós entendemos como é importante valorizar a família. Que é assim que se constrói uma sociedade: começa com a educação em casa e não só tentando ajudar a pessoa que está passando fome do outro lado do mundo. Foi isso o que Madre Teresa ensinou, mesmo depois de tudo que ela fez: que o amor começa em casa.

A história da Madre Teresa é linda, porque os pais dela costumavam receber em casa muitas pessoas muito pobres sem ter o que comer para almoçar na mesa junto com eles. Isso é bastante comum em cidades pobres do interior e eu li na biografia da irmã Lúcia (dos pastorinhos de Fátima) que a família dela fazia a mesma coisa. A mãe dela assava pão extra todo dia só para dar aos pobres e sempre ia cuidar dos vizinhos doentes.

Uma das coisas que adoro no cristianismo é que ele ensina simultaneamente o valor da família e de ajudar os pobres. O que vejo muito hoje é que os jovens querem ajudar os pobres que estão longe e às vezes esquecem de ajudar os que estão próximos (principalmente os pais).

Por isso eu vejo sentido nos mandamentos cristãos: amar o pai e a mãe. E por que não existe o mandamento de amar os filhos? Porque, embora existam pais cruéis, o amor aos filhos é muito mais natural que o amor aos pais. É difícil para um jovem entender o quanto os pais são importantes. Talvez só quando ele tiver um filho.

Enfim, um jovem está aprendendo a viver e repito que é só quando vamos ficando mais velhos que entendemos o valor de várias tradições: da religião e da família, por exemplo.

Para um jovem, a religião o prende e a família o prende. Ele quer ser livre! Os estudos e o trabalho o prendem, ele só quer saber dos amigos que possuem valores parecidos com os seus. Ele e os amigos querem salvar o mundo, mas só mais adiante eles entenderão que nós ajudamos as pessoas começando em casa: amando os pais. E é se dedicando a estudos e trabalho que muitas vezes podemos ajudar o mundo com mais eficácia, exatamente através do trabalho.

E o que a pátria tem a ver com isso? O objetivo do meu post era falar do Brasil, mas acabei falando sobre outras coisas, que também são importantes.

Não acho que precisamos resolver o problema dos conflitos entre países necessariamente fazendo com que o mundo todo se torne um lugar só unificado, assim como não se resolve barreiras linguísticas excluindo todas as línguas e criando apenas uma.

Cada idioma é uma riqueza cultural, assim como a cultura de cada país. Cada lugar é único e possui sua história e ensinamentos extraordinários.

Como vivemos num mundo materialista e secularista, é comum que hoje em dia se valorize mais os países que possuem mais riquezas. Mas os países podem ter outros tipos de riquezas como, por exemplo, religiões, a exemplo de países como Índia, China, Arábia Saudita, Israel, etc.

Tive um professor português uma vez que falou que na opinião dele a divisão entre países de Primeiro Mundo e Terceiro Mundo era apenas um instrumento de dominação para que os tais países de "terceiro mundo" se sintam inferiores. Se for parar para pensar, um país como Estados Unidos tem muitas riquezas, mas também uma enorme quantidade de pobres e pessoas sem atendimento médico de qualidade. Será que dá pra chamar esse país de "Primeiro Mundo"? 

Sendo bem direta, fico bastante indignada quando vejo pessoas falando mal do Brasil. Acho triste ver tantos brasileiros criticando o próprio país. Sim, existem coisas a serem criticadas para serem melhoradas (assim como no cristianismo) mas também existe muita beleza e eu acho extremamente pessimista só apontar as coisas ruins o tempo todo. Que bom que muitos brasileiros valorizem ao menos nosso futebol.

Muitos brasileiros falam mal do Brasil em parte porque possuem uma visão apenas materialista da realidade: se as coisas materiais vão mal, o país está horrível, como se fosse apenas esse o critério de um país bom ou ruim. Mas não se enganem: não é só o brasileiro que fala mal do seu país. Isso acontece entre cidadãos dos mais diversos países do mundo. Falar mal do próprio país é um dos hobbies mundiais favoritos das pessoas.

Eu fico realmente indignada quando vejo brasileiros usando a seguinte frase: "no Brasil acontecem as coisas dessa forma horrível, mas nos outros países é melhor". A expressão "outros países" é usada como se só houvesse no mundo o Brasil, a América do Norte e a Europa. Acabou o mundo!

Existem muitos países, nos mais diversos cantos do globo, em situação pior do que o Brasil no quesito financeiro e na distribuição de renda. Podemos usar exemplos da América Latina, África, Ásia e muitos outros.

O argumento de alguns é o seguinte: "ah, mas não podemos nos comparar com o pior, devemos nos comparar com o melhor para tentar melhorar". Isso está certo somente em parte, pois podemos aprender com TODOS os países. Até o país com a pior situação financeira terá coisas de valor a nos ensinar que podemos aplicar no Brasil. 

Existem pessoas inteligentes fazendo coisas extraordinárias em todos os países. O sistema de saúde público do Brasil, por exemplo, é usado como referência nos mais diversos países.

Enfim, eu queria usar esse post principalmente para desabafar que eu estou farta de ver pessoas apenas falando mal do Brasil. Nós vivemos num país belíssimo, com muitas riquezas naturais, cultura maravilhosa, com universidades muito boas, com sistema de saúde e de educação a fazer inveja a muitos países por aí. Nenhum país é perfeito e todos temos muito a aprender uns com os outros.

Não estou dizendo que só devemos falar bem do Brasil, assim como eu tampouco defendo que se fale que o cristianismo é perfeito e ignore as coisas ruins que já aconteceram em nome dessa religião. Mas se costuma falar tão mal do cristianismo o tempo todo que eu faço questão de relembrar as pessoas das coisas boas. Penso o mesmo do Brasil: sim, temos problemas, assim como TODOS os países. Sim, o capitalismo tem problemas, assim como TODO sistema de governo.

Fico pensando em como as pessoas conseguem acordar de manhã, pensando: "moro num país horrível, vivo num mundo com um sistema capitalista miserável, cheio de religiosos preconceituosos, só vejo os lados ruins de tudo, sou uma pessoa infeliz, estou depressivo, quero me matar!".

Podemos ficar surpresos com isso? Em vez de só ver o lado ruim de tudo e lamentar, por que não ser mais otimista, por que não valorizar as coisas boas, por que não ficar feliz pelas pequenas coisas que podemos fazer para melhorar nosso país e ajudar as pessoas ao nosso redor, através de nossos estudos, nosso trabalho, da convivência com nossa família, de nossas amizades?

Eu também fico triste com um monte de coisas. Não gosto do sistema educacional, não gosto de várias coisas de como funciona o sistema capitalista. Mas vejo que também tenho a agradecer porque temos colégios e universidades gratuitas e porque o capitalismo também nos proporciona algumas coisas de valor que nós só passamos a valorizar quando perdemos.

Sou uma pessoa extremamente feliz na maior parte do tempo. Sim, em boa parte isso se deve porque moro num ótimo país que permite liberdade religiosa e não está em guerra. Porque faço parte da classe média, moro numa capital com várias coisas para fazer, porque tenho uma família que me ama e que eu amo, etc. Cada pessoa tem suas dificuldades e situações particulares e não posso julgar ninguém.

Ainda assim, acredito que podemos ser mais felizes, além de fazer pequenas coisas do lado de fora, alterando um pouco a nossa forma de enxergar o mundo.



Comentários

  1. Bom, eu quanto mais velho fico, mais me afasto de "valores tradicionais". Não acho que o jovem veja a família como "coisa de velho conservador", ele intende muito bem que a família tem sim valor, o que muitos criticam é conceituação rígida religiosa de que só existe um tipo de família, mas ninguém (eu acho) nega que a família seja o primeiro núcleo educacional, basta vermos a tragédia brasileira de famílias destruidas que perdem seus filhos para o tráfico. Dizer que ele não liga pra família e valores culturais vejo como sendo duro de mais da sua parte, religião até vai, porque é uma coisa muito particular.
    Sobre o mundo ser um só, acho que há muita deturpação desse conceito, não se trata de acabar com o conceito de pátria, de nação, uma só lingua (é meio óbvio que precisamos de de delimitações para organização da sociedade devido a vários aspectos) etc, trata-se de entender, finalmente, que todos somos seres humanos e todos merecemos viver no mundo, parece óbvio mas não é, pois a guerra está sempre aí, a espreita, nós nunca fizemos guerra contra um invasor alienígena, o que seria totalmente compreensível, nós só fazemos guerra contra semelhantes, iguais (e aqui estou falando só de guerras entre nações; contra o terrorismo tem uma série de fatores que prefiro não comentar agora).

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    1. Sim, concordo, família não é apenas pai mãe e filhos. Acho que já falei isso em outro post: família pode ser dois pais e filhos, duas mães e filhos, um casal sem filhos, amigos que se consideram uma família, enfim.
      Mas é verdade que vejo muitos adolescentes dizendo que odeiam os pais ou xingando os pais pelas costas (ou pela frente). Isso acontece com mais frequência do que gostaríamos de acreditar.
      Hoje muitos jovens saem de casa assim que fazem 18 anos não porque querem ser independentes, mas porque detestam morar com os pais. Não há nada de errado em morar sozinho, mas há jovens que após os 18 anos mal falam com os pais depois disso. Enfim, cada um tem sua situação. Como eu disse, é complicado julgar.
      O que eu falo no post é experiência de coisas que eu observei ao meu redor. Cada um tem uma experiência diferente.
      Pois é, o conceito de país não acabaria com guerras, já que existem guerras civis e você também comentou sobre tráfico e terrorismo, que podem acontecer também dentro do próprio país.
      Mas gostei muito das tuas observações, Bruno! Achei que foram super relevantes.

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