Os Erros Fatais do Socialismo, por F.A. Hayek (parte 1)




Por um momento pensei que eu tinha visto um livro chamado "Os Erros Fatais de Hayek" mas foi um lapso. Se bem que seria engraçado se tivesse, para fazer uma paródia. 

Em geral, pessoas de esquerda não leem livros de direita e vice-versa. Assim como não cristão não leem livro de cristianismo e vice-versa. Então passamos a ter menos base para criticar aquilo que não compreendemos.

Mas eu entendo completamente. Eu mesma não tenho mais paciência de ler livros com críticas ao cristianismo, como os de Bertrand Russell, David Hume e aqueles no estilo de "Jesus não existiu, aqui estão as provas". Já li alguns deles no passado, mas chega um ponto em que começa a ser repetitivo.

As críticas tanto da direita quanto da esquerda também costumam ser repetitivas. Mas pelo que li até agora, achei que Hayek foi pelo menos original em sua abordagem. Estou na metade do livro, mas vou compartilhar o que achei até aqui, porque serão trechos longos: 

"Não somente a ideia da evolução é mais antiga nas humanidades e nas ciências sociais que nas ciências naturais como eu poderia argumentar até que Darwin chegou às ideias básicas da evolução por meio da economia. Descobrimos por meio dos seus cadernos que ele estava lendo Adam Smith em 1838, exatamente quando formulava sua própria teoria. Seja como for, a obra de Darwin foi precedida por décadas, aliás, por um século de pesquisas concernentes à ascensão de ordens espontâneas altamente complexas por meio de um processo de evolução. Mesmo palavras como 'genético' e 'genética', que se tornaram hoje termos técnicos da biologia, não foram de modo algum inventadas por biólogos. A primeira pessoa, que eu saiba, a falar de desenvolvimento genético foi o filósofo e historiador cultural alemão Herder. Encontramos a ideia novamente em Wieland e mais uma vez em Humboldt. Assim, a biologia moderna tomou emprestado o conceito de evolução de estudos da cultura de linhagem mais antiga. 
Evidentemente, a teoria da evolução cultural (às vezes definida também como evolução psicossocial, superorgânica ou exossomática) e a teoria da evolução biológica, embora análogas em alguns aspectos importantes, não são idênticas. Aliás, com frequência elas partem de suposições bastante diferentes. A evolução cultural, como declarou com exatidão Julian Huxley, é 'um processo radicalmente diferente da evolução biológica, que tem suas próprias leis, seus próprios mecanismos e suas próprias modalidades e não pode ser explicado com bases puramente biológicas'. Apenas para mencionar algumas diferenças importantes: embora a teoria biológica exclua atualmente a herança dos caracteres adquiridos, todo desenvolvimento cultural repousa nessa herança - características na forma de regras que guiam as relações mútuas entre os indivíduos, que não são inatas, mas aprendidas. Para fazer referência a termos usados hoje na discussão biológica, a evolução cultural estimula o lamarckismo (Popper, 1972)"

"Foi Rousseau que - 'declarando na abertura de O Contrato Social que 'o homem nasce livre e por toda parte encontra-se acorrentado' e desejando libertar o homem de todas as restrições artificiais - transformou o que era antes chamado de selvagem no herói virtual dos intelectuais progressistas, instou os indivíduos a se libertarem das restrições mesmas a que deviam sua produtividade e seu número e produziu uma concepção de liberdade que se tornou o maior obstáculo à aquisição de liberdade. Depois de afirmar que o instinto animal era melhor guia para a cooperação ordenada entre os homens que a tradição e a razão  - uma e outra - Rousseau concebeu a fictícia vontade do povo, ou 'vontade geral' por meio da qual o povo 'se torna um único ser, um indivíduo'. Essa talvez seja a principal fonte da presunção fatal do racionalismo intelectual moderno, que promete nos levar de volta ao paraíso onde antes os instintos naturais que as restrições a eles aprendidas nos permitirão 'sujeitar o mundo' como somos instruídos a fazer pelo livro do Gênesis.    
Como vimos, o selvagem estava longe de ser livre; tampouco poderia ter sujeitado o mundo. Em verdade, ele pouco podia fazer sem a concordância de todo o grupo ao que pertencia. A decisão individual pressupõe esferas individuais de controle e, portanto, só se tornou possível com a evolução da propriedade separada, cujo desenvolvimento, por sua vez, estabeleceu os fundamentos para o crescimento de uma ordem ampliada que transcende a percepção do líder ou dirigente - ou da coletividade"

"A surpresa inicial ao descobrir que pessoas inteligentes tendem a ser socialistas diminui quando se atina para o fato de que, evidentemente, as pessoas inteligentes tenderão a superestimar a inteligência, e a supor que seja provável que devamos todas as vantagens e oportunidades que a nossa civilização oferece antes ao planejamento deliberado do que a obediência a regras tradicionais e, do mesmo modo, a supor que podemos, pelo exercício da razão, eliminar quaisquer aspectos inconvenientes restantes com ainda mais reflexão inteligente e ainda mais planejamento adequado e 'coordenação racional' dos empreendimentos. Isso leva à disposição favorável ao planejamento e ao controle econômico central que está no coração do socialismo. É claro que intelectuais exigem explicações só porque, por coincidência, regem as comunidades em que eles nasceram; e isso fará com que conflitem com quem aceita em silêncio as regras prevalentes de conduta. Além disso, os intelectuais compreensivelmente, desejarão alinhar-se à ciência, à razão e ao progresso extraordinário realizado pelas ciências da natureza nos últimos séculos e, uma vez que lhes ensinaram a fazer uso da razão e a ciência se resumem ao construtivismo e ao cientificismo, custa-lhes acreditar que possa existir algum conhecimento útil que não tenha se originado da experimentação deliberada, ou aceitar a validade de qualquer tradição, exceto a sua própria tradição de razão. 
Essas reações são todas compreensíveis, mas têm consequências que são particularmente perigosas - tanto para a razão quanto para a moralidade - quando a preferência não tanto pelos produtos reais da razão quanto pela tradição convencional da razão leva os intelectuais a ignorar os limites teóricos da razão. 
Como outras tradições, a tradição da razão é aprendida, não inata, Ela também está entre o instinto e a razão; e a questão da verdadeira racionalidade e da verdadeira veracidade desta tradição de louvor à razão e à verdade também deve ser examinada de forma escrupulosa"

"Definições e postulados criaram a impressão de que apenas aquilo que é racionalmente justificável, apenas aquilo que pode ser observado, examinado e provado, merece crédito; que só o que é prazeroso deve levar à ação e que tudo mais deve ser repudiado".   

 
Outra observação do autor que eu achei interessante foi a de que Aristóteles condenava o lucro e como a Igreja se baseou bastante em Aristóteles (principalmente depois, com São Tomás de Aquino) a condenação ao lucro do catolicismo é bastante aristotélica. Nesse sentido, o socialismo também teria essa herança aristotélica. Curioso que tanto Platão quanto Aristóteles simpatizavam com o modelo político de Esparta. Hitler também.

É verdade que filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles condenavam o lucro porque eles eram aristocratas e já tinham seu sustento garantido. Já vi um filósofo argumentar que a crítica ao lucro dos sofistas por parte de Sócrates e outros filósofos aristocratas era basicamente um preconceito aos estrangeiros, que eram aqueles que precisavam trabalhar para ganhar a vida, não vinham de família abastada. A maior parte dos sofistas eram estrangeiros.

Uma coisa que pensei: muitos criticam o cristianismo porque nos faz sentir "culpa" por fazer várias coisas. Mas será que a "religião marxista" também não nos gerou a culpa que algumas pessoas têm hoje de gastar dinheiro e alimentar o sistema capitalista, mesmo que seja dinheiro obtido com seu próprio trabalho? Nesse sentido, no que o pecado cristão e o pecado marxista são diferentes?

A Igreja católica não condena a propriedade privada. Achei curioso a ênfase do autor na defesa da propriedade privada, pois até onde eu sabia os socialistas só criticam a propriedade privada dos meios de produção e não a propriedade privada em si, embora critiquem os grandes lucros das empresas privadas, etc.
      
Enfim, vou continuar lendo para ver onde o autor vai chegar, mas já deu pra ter um vislumbre do caminho. Curti a crítica dele ao racionalismo (a arte também faz essa crítica). Ele argumenta que foi a evolução cultural que criou a razão e que não foi a nossa razão que criou todo o resto. Damos importância excessiva à razão, mas a evolução biológica e a tradição possuem papel mais decisivo para guiar nossas vidas, principalmente no que diz respeito à ética, que não pode ser explicada por métodos científicos. E não é só porque ela não pode ser explicada pela razão e pela ciência que significa que a ética não tenha a importância ou que devemos relativizá-la completamente.

 

Comentários

  1. Ao criticar a razão ou o racionalismo ( pano de fundo para criticar o socialismo) não se deve esquecer que o sistema capitalista ,ou seja, o regime burgues que faz do CÁLCULO sua "razão " de existir, foi o grande o grande beneficiado com a disseminação das ideias iluminista no século XVIII.

    E hoje,mais que ontem, o planejamento na busca de excelência nos resultados é MANTRA sagrado em qualquer empresa competitiva.E todos devem "vestir a camisa" da missão, visão e valor da empresa,ou seja, deve haver uma uniformidade de conduta ,postura e pensamento ( sob pena de ficar desempregado,hehehe).

    Mas, a crítica ao racionalismo moderno tem na escola de FRANKFURT grandes expoentes ( Max Horkheimer e Adorno, principalmente).

    Mas, vamos a segunda parte hehehe

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